Em seus primeiros minutos, “A Noiva!”, dirigido por Maggie Gyllenhaal, parece nascer de um impulso quase desafiador, como se revisitar esse mito fosse, por si só, um gesto de provocação criativa. Ainda assim, o que mais desperta curiosidade não é a referência em si, mas o que motiva essa nova incursão pelo imaginário da criatura.
Ao longo da projeção, o filme aposta em uma atmosfera febril, às vezes psicodélica, tentando transformar sua protagonista em um símbolo das inquietações contemporâneas. Há algo de irônico nesse movimento. Ao tentar reinventar o monstro, a diretora acaba revelando as fragilidades da própria obra. Talvez seja justamente nessa vulnerabilidade que o longa encontre seu aspecto mais humano, não como uma declaração calculada, mas como consequência natural de quem decide tocar em um mito ainda tão vivo.
Em produções de grande orçamento, intervenções de estúdio e refilmagens fazem parte do processo. No caso de Gyllenhaal, porém, esses bastidores se tornaram parte inseparável da conversa em torno do filme e, ao assistir ao resultado final, é difícil não entender o porquê. Há uma sensação constante de que as peças não se encaixam completamente. O trabalho de Dylan Tichenor tenta dar ritmo e unidade a uma proposta ambiciosa, mas encontra limites diante de uma estrutura que parece ter sido remontada vezes demais.
Desaparece aqui a lógica fluida que marcava “A Filha Perdida” (2021). Naquele filme, a narrativa transitava entre tempos e perspectivas com naturalidade, sem a necessidade de justificar cada mudança, revelando uma diretora que compreendia profundamente o espaço mental de sua personagem. Em “A Noiva!”, essa sensibilidade parece menos presente. Gyllenhaal demonstra dificuldade em acessar o que realmente move a figura interpretada por Jessie Buckley, e nem mesmo a entrega física de Christian Bale consegue estabelecer uma psicologia consistente para a narrativa.
A protagonista carrega múltiplas identidades ao mesmo tempo. Em certos momentos surge quase como um espírito eterno, uma manifestação saída da imaginação de Mary Shelley, também interpretada por Buckley em passagens que atravessam o filme. No entanto, quando a história se concentra em Ida, namorada de um mafioso na Chicago dos anos 1930 ressuscitada pela Dra. Euphronius, vivida por Annette Bening, o conceito começa a vacilar. Transformada em objeto de desejo para o monstro de Frankenstein, a personagem perde justamente aquilo que deveria defini-la. A própria narrativa sugere que a identidade de Ida existe sempre em função do homem ao seu lado, o que enfraquece qualquer tentativa de sustentar um viés feminista mais contundente.
Visualmente, o filme frequentemente encanta. A figurinista Sandy Powell e a diretora de arte Karen Murphy criam um universo que flerta com o charme decadente da era de Weimar, aproximando o imaginário clássico dos monstros de Hollywood da energia estilizada do Expressionismo alemão. O problema é que, por trás desse verniz estético, a narrativa parece sempre em busca de uma identidade que nunca se consolida por completo.
A tentativa de incorporar a lógica exuberante dos musicais de Busby Berkeley acrescenta mais uma camada a esse desequilíbrio. A ideia tem mérito. Durante a vigência do Hays Code, números de dança muitas vezes funcionavam como substitutos simbólicos para o erotismo que o cinema não podia mostrar abertamente. Esse impulso poderia dialogar bem com a frustração sexual que move o monstro. Na prática, porém, a diretora encontra dificuldade em transformar esse simbolismo em algo organicamente integrado ao filme. O que começa como fantasia logo se dissolve em uma mistura confusa entre devaneio cinematográfico e brutalidade.
A única linha narrativa que ganha fôlego real é a história de amantes em fuga, com ecos de Bonnie e Clyde. Quando Ida e Frank passam a ser conhecidos nacionalmente por sua violência vingativa, o filme finalmente encontra um pulso mais claro. Ainda assim, esse eixo começa a se desgastar quando a narrativa sugere que a Noiva inspira imitadores, em uma montagem que lembra demais o imaginário de “Coringa” (2019), dirigido por Todd Phillips. A semelhança não parece acidental. O projeto compartilha colaboradores como a produtora Emma Tillinger Koskoff, o diretor de fotografia Lawrence Sher e a compositora Hildur Guðnadóttir.
Com um elenco tão sólido, seria natural esperar um eixo emocional capaz de sustentar as ambições do filme. Buckley e Bale demonstram grande entrega, garantindo momentos de genuíno impacto dramático. Mas existe um limite para o quanto a atuação, por si só, consegue sustentar um projeto como esse.
Curiosamente, talvez a melhor descrição do resultado venha de dentro do próprio filme. A Dra. Euphronius comenta que suas experiências buscavam perturbar a geometria perfeitamente organizada das coisas. “A Noiva!” parece seguir exatamente esse princípio. Suas formas irregulares e sua estrutura disforme funcionam como reflexo involuntário dessa ideia, ainda que o resultado final soe mais como um eco confuso do que como sua realização plena.