No seu segundo longa-metragem, “Amores Materialistas”, Celine Song, revelada ao grande público com o delicado e aclamado “Vidas Passadas”, mergulha com precisão cirúrgica nas contradições do afeto contemporâneo, onde o amor não é apenas sentimento: é também investimento, cálculo e projeção de status. Em uma era em que o desejo por conexão se vê contaminado por métricas de desempenho e curadorias de personalidade, Song constrói um filme que confronta, com elegância e ironia amarga, as novas dinâmicas de valor atribuídas ao outro. Longe das fórmulas confortáveis da comédia romântica, sua narrativa se inscreve num espaço de dissonância emocional, onde cada gesto de carinho carrega, invisivelmente, uma etiqueta de preço.
A diretora apresenta aqui Lucy (Dakota Johnson), uma casamenteira que se vê dividida entre dois relacionamentos. De um lado, John (Chris Evans), um garçom e ex-namorado por quem ainda guarda sentimentos; do outro, Harry (Pedro Pascal), um homem rico e irmão de um de seus clientes, com quem ela começa um novo romance. Ao reencontrar John por acaso, Lucy é forçada a encarar emoções mal resolvidas, enquanto seu envolvimento com Harry levanta questões sobre o que pesa mais nas escolhas amorosas: o afeto ou as possibilidades que alguém oferece.
À primeira vista, tudo parece seguir o manual da comédia romântica: encontros casuais, charme leve, diálogos afiados. Mas logo a trama revela outra natureza. Trata-se de um exame inquieto sobre como nos relacionamos em um mundo obcecado por imagem, desempenho e utilidade. Celine Song utiliza o gênero como armadura e armadilha, atraindo o espectador pela familiaridade apenas para desmontar, peça por peça, o conforto que ele espera. O filme reconhece a estranheza dos afetos reais, a bagunça que tentamos esconder e o medo constante de não sermos escolhidos. No fim, o riso cede espaço ao desconforto, e é justamente aí que ele acerta.
A campanha de divulgação pode induzir o público a acreditar que se trata de um romance convencional, centrado na disputa entre dois cavaleiros pelo coração de uma donzela. No entanto, essa expectativa é rapidamente desconstruída. O roteiro, assinado pela própria Celine, afasta com precisão essa leitura simplista. Lucy, de fato, está entre dois homens, mas não como objeto de desejo passivo. É ela quem conduz a situação, em uma busca pessoal por aquilo que faz mais sentido para si. No centro da narrativa está o clássico dilema entre razão e emoção, vivido de forma consciente e autônoma pela protagonista.
Um dos grandes méritos do trabalho de Celine Song está em sua habilidade de equilibrar registros distintos sem comprometer a coesão. “Amores Materialistas” carrega a inteligência crítica típica dos anos 1970, ao abordar temas relevantes com leveza e agudeza, mas também abraça, sem pudor, os clichês da comédia romântica hollywoodiana. Os diálogos são cafonas no melhor (ou pior) sentido do gênero, mas curiosamente funcionam. Mesmo que o desfecho se aproxime demais da fórmula clássica de final feliz, deixando de explorar caminhos mais ousados sugeridos ao longo da trama, a experiência como um todo é marcante e surpreendentemente fácil de se identificar.
Há, no entanto, um tropeço notável quando o filme tenta desenvolver uma subtrama centrada em uma personagem coadjuvante. Trata-se de alguém que, embora relevante na trajetória de Lucy, acaba enfraquecendo a narrativa justamente quando acompanhamos a protagonista no auge de suas decisões. A atenção desviada nesse momento compromete o ritmo e dilui o impacto emocional que vinha sendo cuidadosamente construído.
Embora marcado por momentos cômicos e diálogos espirituosos que conferem um tom despretensioso no início, o filme aos poucos revela uma camada emocional mais densa. O riso inicial cede espaço a uma melancolia discreta e persistente, um sentimento agridoce que ecoa o de “Vidas Passadas”, ainda que com menos densidade e amplitude emocional. O impacto permanece, mas se manifesta de forma mais tênue, numa zona intermediária entre o charme e a introspecção.
Visualmente, “Amores Materialistas” se destaca. A fotografia sensorial de Shabier Kirchner e a trilha sonora contemplativa de Daniel Pemberton estabelecem uma atmosfera elegante e envolvente. Imagem e som dialogam com os sentimentos dos personagens, como se compartilhassem seus silêncios e hesitações. Nesse cenário refinado, Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans se entregam a performances que equilibram carisma e vulnerabilidade, dando corpo a um enredo que poderia parecer trivial, mas ganha complexidade emocional nas entrelinhas.
Mesmo sem a força e o refinamento de sua estreia, Celine Song reafirma aqui seu olhar sensível e atento às pequenas fraturas das relações humanas. “Amores Materialistas” mergulha em zonas de ambiguidade e desconforto com uma honestidade rara, refletindo sobre o valor que atribuímos a nós mesmos e aos outros em um cenário amoroso cada vez mais permeado por expectativas performáticas e trocas simbólicas. Imperfeito, mas honesto e tocante, o filme se confirma como mais uma prova do talento de sua realizadora.