Anora é a mais recente obra de Sean Baker, e o título remete ao nome de batismo de Ani (Mikey Madison), uma dançarina que trabalha em um clube de strip-tease em Nova York. Apesar das jornadas extenuantes e da longa viagem de metrô até o decadente duplex que divide com a irmã em Brighton Beach, Ani parece satisfeita com sua rotina. Ela valoriza seu trabalho, mesmo enfrentando o temperamento difícil de uma colega invejosa.
Tudo começa a mudar em uma noite decisiva, quando o proprietário do clube a convida para uma apresentação privada para Ivan (Mark Eydelshteyn), um jovem milionário russo com um carisma inocente, quase pueril. O que Ani não poderia prever é que, ao aceitar o convite, embarcaria em uma jornada que a levaria para um universo muito mais sombrio e perigoso do que imaginava.
Nos primeiros 45 minutos de Anora, somos transportados, junto com Ani, para algo que se assemelha a um conto de fadas. Após sua performance inicial no clube, Ivan a convida para um jantar em sua luxuosa mansão. A aproximação entre os dois evolui rapidamente: no dia seguinte, ela retorna ao local e, em seguida, é convidada para a festa de Ano Novo da família do rapaz. Ani, acompanhada de sua amiga Lulu (Luna Sofia Miranda), mergulha em uma noite de opulência e extravagância, onde a decadência da alta sociedade é tão avassaladora que faz o ambiente do clube parecer quase inocente.
À medida que Ani passa mais tempo ao lado de Ivan, ela se deixa levar pelas propostas sedutoras que ele lhe faz. Cada convite parece uma oportunidade irresistível, uma promessa de mudança radical em sua vida. A direção de Baker habilmente nos conduz por esse romance que, à primeira vista, soa como uma história de amor irresistível, caminhando para um desfecho feliz. Contudo, como já indicado, Anora é um conto de fadas, mas sem o tão esperado “felizes para sempre”.
Sem entrar em detalhes que possam comprometer a experiência alheia, basta dizer que Ani, em determinado momento, é subitamente confrontada com a brutalidade do mundo de Ivan. A chegada de capangas da família, dispostos a desfazer algo que ambos fizeram consensualmente, revela a verdadeira natureza das intenções ao seu redor. Essa virada nos desperta, junto com Ani, para a crua realidade por trás do sonho que parecia tão palpável.
A partir desse ponto, o tom do filme muda drasticamente. Em meio a uma confusão hilária entre Ani e os três capangas, Baker nos brinda com uma sequência cômica que, embora provoque gargalhadas, carrega um absurdo perturbador. O roteiro de Baker é magistral ao equilibrar o drama e o humor, mascarando a gravidade da situação com um verniz de comédia. Ainda assim, Ani constantemente verbaliza o que está vivendo, deixando claro para o espectador que, por trás das risadas, há um drama pungente e inescapável.
Visualmente, Anora se destaca como o trabalho mais polido de Sean Baker até agora, graças à sua colaboração com o diretor de fotografia Drew Daniels. A estética sofisticada, longe de ser um ponto fraco, complementa perfeitamente a narrativa, adicionando um charme visual à obra. E, como é marca registrada do cineasta, as luzes de neon estão presentes, conferindo uma atmosfera característica ao filme.
Em uma análise final, Anora pode ser visto como uma espécie de “Uma Linda Mulher” dos tempos modernos, mas desprovido do glamour de Julia Roberts e do charme de Richard Gere. Com um desfecho tão doloroso quanto necessário, o longa nos faz refletir sobre as realidades de mulheres que, ainda hoje, enxergam o matrimônio como uma via de ascensão social. Este novo trabalho reafirma o valor de Baker como um autor cinematográfico que sabe explorar o melhor de seus atores e oferecer narrativas marcantes e instigantes.