Existem pessoas que não são familiarizados com Martin Scorsese e acompanha a carreira do diretor de maneira casual, resumem o cineasta como um simples diretor de filmes de máfia que duram mais de duas horas e meia. Felizmente a filmografia dele fala por si só e mostra toda a versatilidade de Scorsese para caminhar por diferentes gêneros do cinema. “Assassinos da Lua das Flores”, novo longa dirigido por Scorsese é a prova dessa versatilidade. Aqui temos um drama que abraça a nação indígena Osage, já posso adiantar que a produção é um retrato fiel de uma história verídica e uma singela homenagem não só para os Osages, mas para qualquer outra tribo de índios que sofreram e ainda sofrem algum tipo de retaliação.
A rápida introdução que Scorsese faz é eficaz para contar a história que deseja, primeiro o longa começa com um ritual Osage, tempo depois esse mesmo povo descobre petróleo em suas terras consideradas horríveis para os brancos e logo em seguida uma montagem de noticiário em preto e branco explica como a nação Osage conseguiu desenvolver uma riqueza geracional com a descoberta do ouro negro. É uma abertura rápida que anuncia a futura dor que irá atingir esse povo por conta dos excessos de ganância e de supremacia branca.
Ernest Buckhart (Leonardo DiCaprio) regressa a Fairfax no final da Primeira Guerra Mundial. Embora muitos o considerem um herói, ele apenas serviu comida aos soldados como cozinheiro. Seu tio William Hale (Robert DeNiro) — que é chamado de Rei por quase todos na região — prometeu-lhe um emprego como motorista de táxi. William se vende como amigo do povo Osage, ele é um mestre de marionetes calculista que se move com um silêncio brutal para trazer mais riqueza para a família. Ele aconselha seu sobrinho Ernest a se estabelecer e começar uma família com a elegível e rica Mollie (Lily Gladstone), uma Osage.
O longa-metragem exibe uma vitalidade durantes os seus 206 minutos de duração tudo aqui é elaborado de maneira eficaz, a trama é bem simplista, ela se desenvolve diante dos nossos olhos e abaixo do nariz de Mollie e mesmo assim demoramos a perceber quem está arquitetando tudo aquilo que está ocorrendo com os indígenas. Muito disso vem do mérito da atuação DeNiro, o Rei é um personagem canastrão de terceira idade boa praça no qual tem um poder de persuasão sobre todos que cruzam o seu caminho. Ele é capaz de arquitetar qualquer tipo de coisa e através da lábia dele fica evidente que as intenções dos personagens ligados a ele são claras, mas que demoram a ser reveladas.
Não surpreendendo absolutamente ninguém, DiCaprio está impecável no papel, Ernest Buckhart é um homem de fisionomia bem rabugenta, seu rosto é inchado, sua lábia só perde para a do seu tio, mas tirando isso ele é um homem que age silenciosamente, as vezes de maneira burra, mas ele sempre está conseguindo o que quer. Se existe um filme que DiCaprio deixou de lado o posto de galã, aqui estamos diante disso, apesar do personagem não transmitir algum tipo de raiva para o expectador, Buckhart é repugnante. Lily Gladstone é o grande destaque da atuação, ela está longe de ser uma revelação, mas devemos admitir que esse é o papel que pode alavancar a carreira dela. Mollie é uma sofredora, ela convive constantemente com o luto pelo os seus entes queridos e para completar ela está lutando contra o diabetes — uma sentença de quase morte no início do século 20.
Além dos Osages estarem morrendo misteriosamente, eles também têm que combater essas doenças, apesar do caso de Mollie com diabetes, em outros momentos, vemos os povos indígenas lutando contra a depressão através do álcool, definhando ou propensos à violência, muitas vezes instigados pelo racismo infligido a eles por pessoas brancas. E como problema geracional, para surpresa de zero pessoas, a justiça/lei não está fazendo nada sobre o que constitui um genocídio lento por meios institucionais — os médicos, legistas e xerifes.
Em fator técnico Scorsese nunca precisou de tanta plasticidade para mostrar o quanto é eficiente em direção, então ele apenas utiliza seus métodos testados e comprovados, planos fechados sempre focalizando em seus atores, planos abertos para mostrar bem a ambientação, para compor tudo isso ele conta com a musicalidade estrondosa de Robbie Robertson que introduz alguns baixos acordes de guitarra dando um tom de suspense durante as falas dos personagens e causando uma impressão que algo está sendo desenvolvido constantemente.
A câmera ágil devora cada detalhe do longa-metragem trazendo um equilíbrio ideal para tornar tudo tão épico e grandioso. Parte das cenas são compostas por cores como vermelho carmesim, verde florestal e bege. A escuridão da noite também é uma algo muito visualmente bonito aqui. Lógico que não posso deixar de falar sobre o ritmo da produção, já que ela dura mais de três horas. Particularmente falando, eu gosto de “O Irlandês” (2019), mas admito que o ritmo é lento e que acaba incomodando a maioria das pessoas que o assiste, em “Os Assassinos da Lua das Flores”, o ritmo é melhor, não deixa o expectador tão exausto se ele já estiver acostumado assistir produções longas, por tanto, ainda é um filme de 3 horas.
Acostumado por citar a imigração irlandesa nos Estados Unidos em seus filmes, aqui Scorsese é inovador por contar uma história sobre nativos recebendo algum tipo de represália. “Assassinos da Lua das Flores” é sobre preconceito, xenofobia, inveja e a não conformação que outros povos além dos brancos podem ter bens riquíssimos. É um acerto apresentar a história de um povo que sofreu. De cara lavada, nos minutos finais da produção o cineasta mostra que esse seu novo filme é um abraço caloroso para essa gente. Só assistindo para entender o que Scorsese faz em cena.
Em última análise, “Os Assassinos da Lua das Flores”, é um épico visceral, é a história dos destroços de um povo, do mal nos corações dos homens brancos e do veneno que eles espalham. O filme é tão poderoso e completo que nos perguntamos se outra pessoa além de Martin Scorsese seria capaz de contar essa história.