Em “Babygirl”, Halina Reijn explora os limites entre desejo, poder e vulnerabilidade. O drama erótico, protagonizado por Nicole Kidman e Harris Dickinson, é uma obra de sedução sutil, onde as relações de intimidade se tornam o palco de tensões psicológicas. A cineasta constrói uma narrativa que desafia convenções, ao mesmo tempo em que expõe a fragilidade dos seus personagens. O filme é uma reflexão inquietante sobre o que nos motiva nas interações mais pessoais, provocando no público a sobre a existência de limite na hora de sentir prazer.
Romy (Nicole Kidman) parece ter uma vida impecável. Ela é uma CEO bem-sucedida, mora em uma casa luxuosa em Nova York, tem duas filhas adolescentes carinhosas e um marido dedicado que ainda a deseja após vinte anos de casamento. No entanto, apesar dessa vida aparentemente perfeita, há uma falha no relacionamento: ao longo dessas duas décadas, o diretor de teatro Jacob (Antonio Banderas) nunca conseguiu proporcionar o prazer suficiente à sua esposa.
Quando um estagiário começa a trabalhar no escritório de Romy, algo dentro dela desperta. É como se, de repente, todas as fantasias reprimidas ao longo dos anos viessem à tona, forçando a mulher a confrontar desejos que até então permaneciam escondidos. Com Samuel (Harris Dickinson), ela encontra uma oportunidade que jamais teve com o marido: a chance de pedir o que realmente deseja. Esse jogo tenso entre o dar e o receber, entre o querer e o agir, se torna o motor de grande parte do drama erótico de Halina Reijn, “Babygirl”. A trama explora a intensidade dessa busca por liberdade e prazer, onde as convenções são desafiadas e as relações de poder ganham uma nova dinâmica.
Halina Reijn aplica muitos dos ensinamentos que adquiriu em “Bodies, Bodies, Bodies” (último trabalho da diretora) para imbuir Babygirl com uma rara e perspicaz visão sobre a Geração Z. O filme não se limita a explorar as dinâmicas de gênero que envolvem uma mulher em posição de poder se envolvendo com um subordinado mais jovem, mas também aborda as tensões geradas pelo abismo geracional no ambiente de trabalho. Através dessa lente, Reijn consegue ampliar a discussão para incluir as complexas interações e desafios que surgem quando diferentes gerações se encontram no mesmo espaço profissional, enriquecendo a narrativa com uma profundidade única.
Em Babygirl, não há uma clara divisão entre o bem e o mal, pois o filme se absteve de impor um julgamento moral sobre seus personagens. Ao invés disso, ele os apresenta de maneira neutra, permitindo que suas ações e escolhas falem por si mesmas, sem a interferência de uma moralidade preestabelecida.
Nicole Kidman entrega uma performance sólida em “Babygirl”, evocando algo de suas interpretações anteriores, como em “De Olhos Bem Fechados”. Assim como naquele filme, ela retrata uma mulher imersa em uma sexualidade intensa, plenamente consciente dos riscos envolvidos em seus desejos, mas, ainda assim, relutante em negar a si mesma o prazer da experiência.
Em última análise, embora o filme explore temas considerados tabus, como práticas sexuais fora do convencional, ele evita mostrá-las de forma explícita. Ao invés disso, se limita a sugerir essas experiências, sem oferecer elementos suficientes para provocar a imaginação do público. Particularmente, teria preferido que o filme mostrasse, ao menos, duas ou três dessas cenas, ao invés de optar por um segmento fragmentado, montado como uma colagem musicada ao som de uma música pop. No final, parece que as fantasias sexuais são suavizadas para serem apresentadas como parte de um videoclipe, sem realmente desafiar o espectador. Não há uma confrontação genuína com o tabu; tudo é diluído para não causar desconforto às “boas mentes”.