O cinema é uma arte que tem a capacidade de adaptar qualquer coisa para si. Conteúdos que às vezes até nos questionamos se é possível serem transformados em filmes, quando menos se espera estamos nós em uma sala de cinema consumindo determinada produção. A bola da vez a ganhar um longa-metragem foi o que possivelmente é o brinquedo mais famoso do mundo, a boneca Barbie, no meio de tantas animações, dessa vez temos um live action que possui um elenco com rostos bastante famosos e uma diretora em ascensão. Após se sair de maneira bem sucedida com “Lady Bird: A Hora de Voar” (2017) e “Adoráveis Mulheres” (2019), Greta Gerwig dirige “Barbie” e mostra mais uma vez a sua capacidade de contar histórias que nos deixam reflexivos, mesmo introduzindo um tom bem humorado em seus filmes.
Nos tons vibrantes de rosa de Barbielândia, a chamada ‘Barbie Estereotipada’ vivida por Margot Robbie vagueia com outras Barbies (incluindo Issa Rae, Alexandra Shipp, Hari Nef e Emma Mackey) em um paraíso movido pelo o poder feminino, onde mulheres controlam tudo. Elas também possuem seu próprio dinheiro, casas, carros e carreiras…todas as coisas que eram legalmente proibidas para as mulheres em algum momento do ~Mundo Real~. Gerwig estabelece regras práticas desse reino fantástico desde o início, mostrando como a Barbie interage com os objetos e o ambiente. Seus calcanhares não tocam o chão; não há água real no encanamento de sua casa; seu espelho carece de qualquer superfície reflexiva. Em Barbielândia os corpos se movem e reagem sentimentalmente como se fossem manipulados pelas as mãos desajeitadas de uma criança. Para ser mais direto, todo sentimento que uma proprietária de uma Barbie possui, se reflete em uma Barbie que vive no mundo que Gerwig idealizou.
A atriz, roteirista e diretora Greta Gerwig e seu marido, Noah Baumbach, escrevem o roteiro. Eles decidem iniciar o filme fazendo uma sátira de “2001 — Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick. No lugar do monólito, uma Barbie gigante. Desde a origem, a maioria dos brinquedos feito para meninas eram bonecas em forma de bebês que simulavam uma maternidade precoce na vida das meninas. De repente surge a Barbie, uma reprodução de mulher adulta, com todo tipo de representação para arrebentar de vez essas amarras. Através da Barbie, as mulheres podiam ser tudo o que quisessem, pelo menos essa sempre foi a ideia vendida através da boneca.
“Barbie” veio para transmitir os sentimentos femininos. Que por vezes, ou a maioria das vezes sempre esteve em segundo plano por conta da dominância da raça masculina ( o filme também fala sobre isso). Sim, mulheres podem e devem ser o que quiser, mas em alguns momentos elas estão esgotadas e não querem ser vistas apenas pelo o que são profissionalmente. Isso é representando no longa quando a ‘Barbie Estereotipada’ possui um defeito em seus pés, desde então ela tem a missão de ir ao mundo real para corrigir esse seu defeito. No decorrer dessa aventura, a Estereotipada encontra uma sensibilidade no qual faz ela chorar e possuir ‘sentimentos humanos’, como a ansiedade e até mesmo a depressão.
Quem está presente também é Ken (um entre centenas), o que é vivido por Ryan Gosling, a princípio o personagem de Gosling aparenta ser aquele cara inofensivo, que está sempre cercando a Barbie e querendo chamar a sua atenção de alguma maneira. Ele consegue ir acompanhar a Barbie nessa busca pessoal com a intenção de ajudar, no entanto, quando Ken chega no mundo real ele se depara com a soberania masculina que existe no mundo real e isso acaba afetando sua personalidade. Desde então o filme mostra/reforça o quão a figura masculina consegue destruir quase tudo que toca. Prefiro não desenvolver tanto esse tópico para não estragar a experiência alheia.
O filme consegue ser um pouco sobre tudo, além dessas abordagens entre masculinidade e feminilidade, a produção também discute a relação entre mãe-filha através da funcionária da Mattel, Gloria (America Ferrera), que revive com ela os sentimentos em torno de suas velhas bonecas Barbie, e sua adolescente Sasha (Arianna Greenblatt), que só consegue ver a que Barbie determinou um legado do capitalismo sexualizado e um consumismo desenfreado.
Está notório que Gerwig se inspira em “Uma Aventura LEGO” (2014), uma produção que quebrou a barreira de como fazer um longa de uma marca que não pareça um filme comercial sobre aquela determinada marca/produto. “Barbie” é uma direção bem simplista, está longe de ter um plano ou uma movimentação de câmera mais ousada, e até mesmo possui personagens que não agregam muito na trama, mas é impressionante como a diretora consegue criar um espetáculo chamativo em todos os quesitos. Diálogos bem desenvolvidos, piadas bem escritas que nos fazem gargalhar, número musical bem coreografado pelo o elenco e o bom uso da trilha sonora.
Em última análise, particularmente falando “Lady Bird” ainda continua sendo minha produção de Greta Gerwig, mas com “Barbie”, como cineasta Gerwig chegou a um nível de maturidade incrível que nos deixa ansioso para sua próxima produção. Sendo bem óbvio, é lógico que o filme possui um discurso pró-mulheres e isso vai incomodar bastante um grupo de pessoas que vai querer menosprezar essa veia ativista que a produção possui. Como arte é feita para incomodar, podemos dizer que “Barbie” é cinema em seu mais alto nível.