ORBE

“Coyote vs. Acme”, de Dave Green, transforma uma velha piada em uma inesperada comédia de tribunal

“Coyote vs. Acme”, de Dave Green, transforma uma velha piada em uma inesperada comédia de tribunal

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Há algo profundamente irônico em “Coyote vs. Acme”. O longa dirigido por Dave Green conta a história de um coiote que finalmente decide processar a corporação que, há décadas, vende a ele produtos defeituosos capazes de explodir, esmagá-lo ou lançá-lo penhasco abaixo. E, fora das telas, o próprio filme viveu um enredo parecido. Quase foi engavetado por uma grande corporação de streaming antes de ser resgatado por uma pequena distribuidora, a Ketchup Entertainment.

Essa camada extra de significado é apenas um dos motivos pelos quais vale a pena assistir ao filme. O roteiro, assinado por Samy Burch, a mesma de “Segredos de um Escândalo”, e inspirado em um artigo publicado pela The New Yorker em 1990, parte de uma ideia deliciosamente absurda. E se o Papa-Léguas fosse real, a Acme Corporation também fosse e, depois de tantos fracassos, Wile E. Coyote simplesmente decidisse contratar um advogado?

A premissa de misturar personagens animados com atores de carne e osso não é nova. “Uma Cilada para Roger Rabbit” já havia explorado esse território com maestria há mais de três décadas, mas Green encontra um ângulo próprio para revisitar a fórmula. Aqui, quem guia o espectador por esse universo híbrido é Kevin Avery, advogado interpretado por Will Forte, contratado para representar o coiote silencioso em uma ação judicial contra a todo-poderosa Acme. Do outro lado do tribunal está Buddy Crane, vivido por John Cena, ex-parceiro de Kevin e agora principal advogado da corporação.

É justamente na dupla formada por Forte e Cena que o filme encontra seu equilíbrio cômico mais eficiente. Forte constrói um personagem modesto e um tanto derrotado, enquanto Cena investe no exagero da masculinidade corporativa, o tipo de sujeito que trata um processo judicial como uma luta de ringue. Lana Condor completa o trio principal como sobrinha e assistente de Kevin, funcionando como uma ponte entre o espectador e a lógica surreal desse mundo em que ninguém parece estranhar um canino recebendo uma intimação judicial.

Fãs da Warner vão se deliciar com as aparições de Pernalonga, Patolino, Taz e Piu-Piu espalhadas pela trama, mas o mais interessante é que “Coyote vs. Acme” não depende apenas da nostalgia para funcionar. O filme tem humor próprio, com diálogos afiados e situações que vão do pastelão mais clássico a sacadas mais sofisticadas de humor adulto, sem nunca perder a leveza necessária para também agradar às crianças na plateia.

Um dos grandes acertos criativos está na reformulação do próprio Wile E. Coyote. Em vez de repetir o papel de vilão obcecado por perseguir sua presa, o filme o transforma em vítima de um sistema, o que muda completamente a forma como encaramos décadas de armadilhas fracassadas. De repente, cada capacete de propulsão que explode na cara dele parece menos uma piada e mais uma evidência em um processo por responsabilidade civil.

Nem tudo é perfeito. Em alguns momentos, o filme parece hesitar entre ser uma comédia física ininterrupta, no espírito dos curtas originais, e um filme de tribunal com múltiplas idas e vindas em torno do mistério por trás da negligência da Acme. Essa segunda linha narrativa, embora necessária para dar corpo à história, acaba sendo repetida mais vezes do que deveria, e a duração total se estende um pouco além do ideal para uma premissa que, no fundo, funciona melhor em explosões curtas de anarquia.

Ainda assim, esses tropeços de ritmo não comprometem o resultado final. “Coyote vs. Acme” consegue equilibrar uma dose generosa de comédia pastelão com uma crítica sutil ao poder das grandes corporações, sem nunca se levar a sério demais. É um raro caso de entretenimento familiar que não trata o público como refém de um catálogo de brinquedos ou assinaturas de streaming e que, ironicamente, só chegou às telonas porque escapou desse mesmo destino.

No fim das contas, talvez todos nós tenhamos o nosso próprio Papa-Léguas particular. Aquele objetivo que foge por entre os dedos, não importa quantos gadgets compremos para alcançá-lo. “Coyote vs. Acme” transforma essa frustração universal em uma comédia inteligente, engraçada e, surpreendentemente, tocante.