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De volta após oito anos, David Robert Mitchell entrega “O Fim da Rua” com toda sua força autoral

De volta após oito anos, David Robert Mitchell entrega “O Fim da Rua” com toda sua força autoral

Foto: Divulgação

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Há algo curioso em confiar a David Robert Mitchell um filme de US$ 85 milhões sobre uma vizinhança suburbana tomada por dinossauros. Depois de Corrente do Mal e O Mistério de Silver Lake, o cineasta retorna às telas após oito anos para transformar uma ideia aparentemente absurda em uma produção de grande escala, estrelada por Anne Hathaway e Ewan McGregor. Em O Fim da Rua, um evento cósmico arranca a Oak Street de seu lugar e transporta os moradores para um ambiente desconhecido, onde a sobrevivência da família Platt passa a depender da capacidade de permanecer unida.

O que chama atenção não é apenas a dimensão da aposta, mas o contraste entre o tamanho da produção e a natureza da filmografia de Mitchell. O Fim da Rua parte de uma premissa que remete de imediato ao imaginário do cinema de aventura, mas encontra seu ponto de partida no cotidiano de uma família em crise. É nesse encontro entre o banal e o extraordinário que o diretor constrói seu novo trabalho, uma história de sobrevivência que começa menos pela ameaça dos dinossauros do que pelas fissuras já existentes dentro de uma casa.

Apesar da escala ampliada e da presença de criaturas pré-históricas, Mitchell parece menos interessado em reinventar o cinema de aventura do que em retomar a simplicidade de seus primeiros trabalhos. O realizador, que ganhou projeção com Corrente do Mal ao explorar o horror por meio de uma atmosfera inquietante e de uma ameaça difícil de compreender, agora abandona qualquer pretensão de subverter o gênero. Ambientado nos anos 1980, o longa não se apoia excessivamente em referências ou na nostalgia para construir seu universo. Mitchell prefere uma abordagem direta, quase clássica, deixando que o extraordinário irrompa em meio à normalidade de uma família aparentemente comum.

É justamente essa normalidade que dá força ao início do filme. Antes que a Oak Street seja arrancada de seu cotidiano, Mitchell dedica atenção aos Platt e às pequenas tensões que já existem dentro daquela casa. Uma celebração comunitária no bairro funciona como ponto de partida para apresentar uma família que, embora reunida fisicamente, começa a se desfazer emocionalmente. O diretor não precisa recorrer a grandes conflitos ou explicações elaboradas; gestos, diálogos e situações corriqueiras já bastam para estabelecer a distância entre os personagens. Quando o impossível finalmente acontece, a ameaça externa apenas amplia uma desintegração que já estava em curso.

Mitchell estrutura o núcleo familiar a partir de conflitos bastante reconhecíveis. Greg, interpretado por Ewan McGregor, está pressionado pela instabilidade profissional e financeira, enquanto Denise, vivida por Anne Hathaway, tenta sustentar suas próprias ambições literárias em meio à dependência econômica do marido. Entre os dois, Audrey e Brian atravessam os atritos próprios da adolescência, absorvendo e reproduzindo as tensões que dominam a relação dos pais. São problemas que poderiam facilmente conduzir a um drama familiar convencional, mas o roteiro não lhes dá tempo para se aprofundar. Uma tempestade interrompe abruptamente essa rotina quando um clarão estranho provoca um apagão e desloca o bairro inteiro para um mundo dominado por dinossauros.

A partir desse momento, Mitchell encontra sua principal ironia. Tudo aquilo que antes parecia urgente deixa de ter qualquer importância. Dívidas, frustrações profissionais, ressentimentos conjugais e conflitos entre pais e filhos são reduzidos de imediato à condição de problemas secundários diante da necessidade elementar de sobreviver. O fantástico, portanto, não chega apenas para movimentar a trama, mas para colocar aquela família diante de uma ameaça capaz de reorganizar suas prioridades. Em uma história sobre dinossauros invadindo uma vizinhança suburbana, o diretor encontra seu conflito mais interessante justamente entre quatro pessoas que precisam reaprender a funcionar como família.

O Fim da Rua assume uma dinâmica deliberadamente simples, construída sobre uma sucessão de encontros com os dinossauros que aumentam aos poucos a sensação de perigo. Mitchell não parece interessado em esconder suas cartas ou transformar cada aparição em um quebra-cabeça narrativo. Uma criatura surge, a família é colocada em risco e os Platt precisam encontrar uma maneira de escapar usando aquilo que têm à disposição. Essa repetição poderia rapidamente se tornar mecânica, mas o diretor entende o prazer elementar desse tipo de aventura e conduz cada situação com objetividade. O longa anuncia com antecedência boa parte do que pretende fazer e, ainda assim, consegue extrair tensão justamente da execução, apostando menos na surpresa do que na expectativa pelo próximo confronto.

Embora siga uma estrutura que se aproxima do episódico, O Fim da Rua raramente deixa que essa repetição transforme a experiência em algo automático. Muito disso se deve à maneira como Mitchell, novamente ao lado do diretor de fotografia Michael Gioulakis, usa o espaço como parte essencial da narrativa. Em vez de depender exclusivamente dos efeitos visuais ou de grandes movimentos de câmera, o filme encontra tensão na composição dos planos, escondendo informações nas laterais, no fundo ou mesmo em áreas aparentemente banais do quadro. Há uma preocupação constante em fazer o espectador observar a imagem, seja para antecipar uma ameaça, perceber uma piada visual ou simplesmente descobrir algum detalhe que enriquece aquela pequena porção de mundo capturada pela câmera.

No fim das contas, O Fim da Rua funciona justamente por aquilo que se propõe a ser, mas também deixa a sensação de que poderia ter ido um pouco além. Parte dessa frustração, porém, nasce menos das escolhas de Mitchell do que do contexto em que uma produção como essa chega ao público. Em um mercado dominado por propriedades conhecidas e universos previamente estabelecidos, um blockbuster original acaba carregando uma expectativa desproporcional, como se precisasse justificar sozinho a existência de produções de grande orçamento que não dependem de uma franquia. Mitchell entrega uma aventura eficiente, visualmente inventiva e consciente de suas limitações, mas talvez o peso colocado sobre ela seja maior do que aquilo que sua proposta simples jamais pretendeu sustentar.

O domínio visual de Mitchell, embora seja uma das maiores virtudes do filme, também pode se transformar em excesso. Há momentos em que sua preocupação com a composição parece chamar mais atenção para si mesma do que para aquilo que está sendo narrado, como em certas conversas familiares construídas com enquadramentos elaborados e foco dividido. O mesmo acontece em algumas escolhas de roteiro, que parecem existir tanto para caracterizar os personagens quanto para reforçar a personalidade autoral do diretor. O problema mais evidente, contudo, está no equilíbrio entre esses elementos. Mitchell demonstra enorme segurança para criar imagens, mas nem sempre encontra a mesma precisão para transitar entre registros tão distintos. O Fim da Rua pode passar do drama familiar ao espanto, do humor ao absurdo em questão de instantes, e essa instabilidade produz momentos genuinamente divertidos e surpreendentes, mas também algumas passagens em que o filme parece não saber exatamente qual tom deseja sustentar.

O elenco embarca completamente na proposta, e Anne Hathaway se destaca pela disposição de levar sua personagem até as situações mais absurdas. Empunhando uma espingarda e encarando criaturas pré-históricas, a atriz consegue preservar a credibilidade de Denise mesmo quando o filme abandona qualquer compromisso com o realismo. Essa entrega se estende aos momentos mais extremos da aventura, incluindo cenas de violência e outras bizarrices que Mitchell introduz sem qualquer constrangimento. Em meio a essa disposição para o inesperado, há uma cena específica que reúne o humor, o choque e o absurdo característicos do filme e que tem tudo para se transformar em um daqueles momentos destinados a circular pela internet muito depois dos créditos finais.

Ao equilibrar afeto, estranheza e uma dose considerável de provocação, O Fim da Rua consegue ser mais divertido do que sua premissa poderia sugerir. Mitchell demonstra domínio técnico e uma coragem admirável para levar a história a lugares inesperados, mesmo quando a simplicidade de sua estrutura impede que o filme alcance toda a ambição que parece carregar. Ainda assim, há algo estimulante em ver um cineasta com uma assinatura tão marcada recebendo novamente espaço e recursos para trabalhar em uma produção dessa escala. Se o filme funciona também como uma reafirmação de sua capacidade de conduzir grandes espetáculos sem abandonar completamente sua personalidade, resta esperar que essa experiência permita a Mitchell voltar a projetos ainda mais livres, estranhos e ambiciosos como O Mistério de Silver Lake.