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Em "A Ilha Esquecida", a DreamWorks aposta na psicodelia em favor do folclore filipino

Em "A Ilha Esquecida", a DreamWorks aposta na psicodelia em favor do folclore filipino

Foto: Divulgação

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Não é de hoje que a DreamWorks vem conquistando minha admiração. Essa relação começou, de forma bastante marcante, em 2022, quando o estúdio lançou "Gato de Botas 2: O Último Pedido". A partir dali, a DreamWorks passou a apresentar uma sequência de produções que, mesmo com eventuais tropeços, demonstram uma disposição cada vez maior para apostar em filmes autorais, dotados de personalidade própria, tanto na maneira de construir suas histórias quanto, principalmente, na liberdade com que explora diferentes possibilidades dentro da animação. Afinal, quanto mais se produz, maior também é a chance de errar. Em 2026, o estúdio chega a um novo projeto com "A Ilha Esquecida", dirigido por Joel Crawford, responsável por "Gato de Botas 2", em parceria com Januel Mercado. O resultado é mais um indicativo de que a DreamWorks atravessa uma de suas fases criativas mais interessantes, e quem mais se beneficia disso é o público, que encontra cada vez mais espaço para animações de assinatura própria dentro de um grande estúdio.

A premissa de "A Ilha Esquecida" parte de uma ideia simples, mas bastante fértil para a construção de sua narrativa. Enquanto celebram sua última noite juntas, as recém-formadas do ensino médio e melhores amigas Jo (Gabriella Sarmiento Wilson) e Raissa (Liza Soberano) se deparam com um portal misterioso que as transporta para a ilha fantástica de Nakali. Ao descobrirem que as memórias de toda a sua amizade são o preço para voltar para casa, Jo e Raissa correm contra o tempo para encontrar uma maneira de deixar a ilha antes que se esqueçam uma da outra para sempre.

Aparentemente, o roteiro assinado pelos dois diretores da produção não apresenta nenhuma grande novidade, e, de fato, não apresenta. O que torna "A Ilha Esquecida" cativante, porém, é a maneira como essa história é conduzida. Quando Jo e Raissa chegam à ilha e acordam, logo percebemos que aquele não é o primeiro momento delas em Nakali. Algumas coisas já aconteceram antes de despertarem e, no melhor estilo de "Se Beber, Não Case!", as duas amigas precisam reconstruir os acontecimentos para entender o que fizeram enquanto estavam inconscientes. Ao mesmo tempo, precisam encontrar um artefato que perderam e que é fundamental para que consigam voltar para casa. É justamente essa estrutura de mistério e descoberta que dá ao filme um ritmo mais divertido e instigante.

O filme busca construir uma realidade completamente fantasiosa, maluca e hiperbólica, povoada por criaturas pouco humanizadas e com as formas mais grotescas possíveis. Ao mesmo tempo, tenta sustentar uma comédia durante sua hora e meia de duração. Preciso admitir que algumas piadas funcionam melhor do que outras, mas existe um equilíbrio interessante entre Jo e Raissa. Boa parte dos momentos engraçados nasce de Jo, enquanto o aspecto mais dramático da narrativa encontra em Raissa seu principal ponto de apoio. Ainda assim, ela também protagoniza situações cômicas, o que impede que as duas sejam reduzidas a funções tão rígidas dentro da dinâmica da história.

O ponto mais fraco do longa-metragem está justamente em seus vilões. Ao todo, temos duas antagonistas, e ambas apresentam problemas semelhantes em sua construção. A primeira é aquela que parte para o confronto físico, aparentemente descontrolada, e o filme sugere que algo foi perdido em sua trajetória até alcançar aquele nível de maldade. O problema é que, quando ela é confrontada, não encontramos uma explicação realmente satisfatória para entender como chegou àquele estado. A segunda vilã está diretamente ligada à questão das memórias, e, sem entrar em detalhes da trama para não estragar a experiência de quem ainda vai assistir, posso dizer que o problema se repete: a origem daquilo que a motiva também não é desenvolvida com o cuidado necessário.

Talvez "momentaneamente" seja uma boa palavra para definir os antagonistas de "A Ilha Esquecida". Falta ao filme coragem para construir uma vilania mais concreta. Quem aparentemente foi destinado a ocupar o papel de vilão, na verdade, não é exatamente uma vilã, mas alguém atravessando uma espécie de fase que será eventualmente resolvida pelo poder da amizade. Essa escolha não chega a comprometer completamente a experiência, mas enfraquece um pouco o filme ao retirar de seus conflitos a força que eles poderiam ter.

Apesar disso, prefiro valorizar aquilo que funciona em "A Ilha Esquecida". A mensagem sobre amizade e memória é forte, mas o filme vai além e encontra na cultura um elemento importante de sua identidade. Sim, cultura. O que nos é apresentado aqui parte do folclore das Filipinas e constrói uma meditação interessante sobre memória, narrativa e a espiritualidade filipina, atravessada pelas experiências pré e pós-coloniais do país. É um aspecto que amplia a experiência para além da aventura fantástica e dá ao filme uma identidade própria. Sendo mais direto, a animação também é um dos grandes destaques. Visualmente estilosa, flerta com a psicodelia, traz inspirações de animes e, ao mesmo tempo, resgata alguns traços clássicos que marcaram os filmes mais antigos da DreamWorks. É uma combinação primorosa. A trilha sonora também merece destaque, acompanhando bem o tom da narrativa ao longo do filme.

"A Ilha Esquecida" confirma que a DreamWorks encontrou um jeito de conciliar entretenimento infantil com ambição autoral, e é justamente essa combinação — uma aventura sobre amnésia sustentada pela riqueza do folclore filipino — que garante ao filme uma identidade que poucas animações recentes do gênero conseguem alcançar. Os vilões subaproveitados ficam como a principal mancha nesse percurso, mas não o suficiente para ofuscar o que há de mais interessante aqui: uma animação disposta a arriscar.