“O Brutalista”, dirigido por Brady Corbet, é um épico ambicioso que se destaca por sua profundidade temática. O cineasta constrói uma narrativa sobre os alicerces da imigração, onde nos deparamos com sacrifício, perda e reinvenção. A jornada de um imigrante, assim como a de um edifício brutalista, desafia o tempo e a resistência, erguendo-se contra as forças que tentam reduzi-lo ao nada.
Laszló Toth (Adrien Brody) está longe de ser um homem comum. Arquiteto judeu húngaro formado pela renomada Bauhaus, ele foge de uma Budapeste devastada pela guerra em busca de um novo começo. Seu destino é a Pensilvânia, onde se refugia com um primo distante enquanto aguarda, com a paciência de quem reconstrói tijolo por tijolo, o momento de reunir sua família. Do outro lado do oceano, sua esposa Erzsébet (Felicity Jones) e sua sobrinha Zsófia (Raffey Cassidy) esperam pelo dia em que finalmente poderão se juntar a ele na América.
Como todo grande épico, “O Brutalista” conduz seu protagonista por uma jornada marcada por triunfos deslumbrantes e quedas devastadoras. No centro dessa montanha-russa do destino está Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce), o homem que desencadeia tanto sua ascensão quanto sua ruína. Um magnata absurdamente rico, Van Buren cerca-se de mentes criativas dispostas a satisfazê-lo, ainda que sua própria falta de talento artístico seja evidente. Em meio a uma vida de excessos, ele compartilha seu mundo extravagante com os gêmeos Harry (Joe Alwyn) e Maggie (Stacy Martin).
Brady Corbet é direto quanto ao que deseja discutir no roteiro de seu filme. “O Brutalista” é sobre imigração e sobre os dramas vividos pelos imigrantes longe de casa. Logo no início, uma cena marcante mostra a chegada de Laszló Toth aos Estados Unidos. Uma das primeiras coisas que ele avista é a Estátua da Liberdade. Ao ver o monumento, ele explode de felicidade e esperança; no entanto, Corbet enquadra a estátua de maneira tortuosa, um aviso de que não estamos prestes a ver uma história de esperança como seu protagonista imagina.
O longa-metragem transborda excessos em vários aspectos, desde uma duração teatral de quase quatro horas até o universo visual criado por Corbet em parceria com a designer de produção Judy Becker. O filme é moldado por concreto e aço, mas também impregnado de suor e poeira, compondo uma visão dos Estados Unidos que observa atentamente tanto suas construções físicas quanto suas estruturas simbólicas. Nesse sentido, a produção se transforma em um labirinto, um espaço desconhecido e desconcertante para um protagonista que não consegue escapar da sensação de estranheza diante do mundo que o cerca.
Filmado em 70mm por Lol Crawley, a fotografia captura a suavidade da luz solar matinal, que valoriza ainda mais a imponência do concreto. Van Buren discursa sobre a inexistência de beleza no concreto; no entanto, Crawley prova que ele está errado. No geral, a cinematografia de “O Brutalista” é impressionante em diversos aspectos, conseguindo dimensionar a grandiosidade dos cenários e ampliar a sensação de imersão.
Adrien Brody já nos acostumou a personagens atormentados pela morte e pela guerra, e mesmo assim parece ser o único ator capaz de interpretar Laszló. Uma escolha certeira de elenco, onde todos os personagens carregam uma carga dramática intensa. No entanto, é Laszló quem tem mais a oferecer ao público. Em um momento, ele é um homem amável que desperta nossa preocupação; em outro, revela-se um sujeito arrogante, obcecado com sua visão arquitetônica.
Guy Pearce, por sua vez, equilibra seu personagem entre o carismático e o repulsivo. O magnata está sempre impecavelmente vestido, determinado a conseguir tudo o que deseja, encarnando perfeitamente o ditado “lobo em pele de cordeiro”. Da mesma forma que convence Laszló com uma suavidade inexplicável, também o subjuga de diferentes maneiras. Sem dúvidas, Van Buren é um personagem intenso.
“O Brutalista” é uma obra refinada, capaz de nos fazer acreditar que tudo aquilo é real, ainda que estejamos diante de um roteiro original. Brady Corbet, um cineasta jovem com poucos trabalhos no currículo, demonstra aqui uma habilidade impressionante para criar clássicos. E sim, “O Brutalista” já nasce como um clássico.