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Em “Só Por uma Noite”, a comédia romântica de Will Gluck imagina um mundo onde a intimidade virou lei, jogo e raridade

Em “Só Por uma Noite”, a comédia romântica de Will Gluck imagina um mundo onde a intimidade virou lei, jogo e raridade

Foto: Divulgação

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A comédia romântica é um gênero de mecanismos bastante reconhecíveis, mas isso não significa que precise funcionar no piloto automático. Will Gluck conhece bem essa engrenagem e volta a explorá-la em “Só Por uma Noite”, filme que aposta no encontro entre flerte, constrangimento e confusões sentimentais para tentar recuperar aquela leveza típica das histórias em que duas pessoas parecem destinadas a se complicar antes de, inevitavelmente, se aproximarem. O problema é que conhecer as regras do jogo não significa necessariamente conseguir surpreender dentro delas, e, por mais que Gluck demonstre familiaridade com esse território, sua nova investida parece mais interessada em reproduzir a fórmula do que em encontrar algo realmente novo para dizer sobre ela.

Escrito por Travis Braun, o longa constrói sua história a partir de uma Nova York ligeiramente deslocada da realidade, onde uma medida conhecida como ‘o decreto’ transformou a vida íntima da população em assunto de Estado. Três anos após a implementação da lei, relações sexuais fora do casamento passam a ser proibidas, numa sociedade em que até o desejo precisa respeitar regras e burocracias. A única brecha surge uma vez por ano, quando os solteiros recebem uma janela de 12 horas para se relacionar livremente, desde que sigam uma exigência bastante específica: proteção obrigatória. É nesse intervalo cuidadosamente delimitado que a trama encontra seu ponto de partida, usando uma premissa potencialmente fértil para misturar romance, comédia e uma dose de sátira social.

No centro dessa noite está Allie (Monica Barbaro), uma cantora de jingles cansada de encontros que terminam sem deixar qualquer vestígio de intimidade além do momento. Diferentemente dos anos anteriores, ela decide que não quer simplesmente se envolver com alguém por conveniência e passa a procurar uma conexão que tenha algum significado. Do outro lado está Owen (Callum Turner), proprietário de uma pizzaria que entra na noite acreditando estar prestes a dar um passo definitivo no relacionamento com Malika (Maya Hawke). A expectativa, porém, dura pouco: ela revela que pretende aproveitar a ocasião para conhecer outras pessoas e abandona Owen durante o jantar, deixando para trás não apenas o pedido de casamento, mas também qualquer ideia de que aquela noite seguiria o roteiro que ele havia imaginado.

Owen e Allie parecem destoar de uma cidade inteira que decidiu tratar aquela noite como uma obrigação anual de diversão a ser cumprida. Ele, ainda abalado pelo fim inesperado dos planos com Malika; ela, insistindo na ideia quase ingênua de que ainda é possível encontrar algo genuíno em meio a encontros tão programados. Quando os dois se conhecem, há uma sintonia que parece apontar para um caminho mais simples, mas o roteiro rapidamente se encarrega de complicá-lo. Equívocos, coincidências e uma sucessão de situações cada vez mais improváveis fazem com que a aproximação seja constantemente interrompida. Gluck acompanha esse movimento pelas ruas de Nova York, transformando as poucas horas disponíveis para os solteiros em uma espécie de corrida sentimental.

Monica Barbaro e Callum Turner possuem uma presença que naturalmente favorece a dinâmica de um casal romântico, mas a produção tenta ir além da simples combinação de rostos fotogênicos. Allie carrega uma frustração que não apagou completamente sua crença no amor, e Barbaro encontra alguma graça justamente nessa contradição, equilibrando esperança e desencanto sem transformar a personagem em uma caricatura da romântica incurável. Turner, por sua vez, interpreta Owen com uma vulnerabilidade discreta, especialmente quando o orgulho é atingido e ele se vê confrontado com a imagem de homem sensível e injustiçado que construiu para si.

Embora não seja exatamente um filme interessado em discutir política, o longa encontra na própria configuração de sua sociedade uma maneira de tocar, ainda que superficialmente, em uma questão bastante contemporânea. A divisão entre grupos e visões de mundo aparece menos como objeto de debate e mais como parte do ambiente que cerca seus personagens, ajudando a explicar por que estabelecer uma conexão genuína parece cada vez mais complicado.

Gluck evita transformar as regras desse universo em um exercício de construção de mundo ou em uma discussão política propriamente dita. A cidade está constantemente cercada por sinais da disputa em torno do Mandato, com manifestações visuais espalhadas pelas ruas que deixam evidente a existência de uma sociedade dividida, mas a narrativa prefere manter essa tensão no plano de fundo. Na prática, a lei interessa menos pelo que representa do que pelo efeito que produz sobre a trama: ao estabelecer uma contagem regressiva de 12 horas, cria uma urgência conveniente para aproximar e afastar seus protagonistas, além de fornecer ao roteiro uma justificativa simples para transformar cada encontro em uma corrida contra o relógio.

Se A Mentira representa um dos momentos mais seguros de Will Gluck dentro da comédia adolescente, esta nova investida tenta ocupar posição semelhante no campo da comédia romântica. O diretor já conhece os códigos do gênero e demonstra familiaridade com o ritmo, os desencontros e a leveza que costumam sustentar esse tipo de história. Ainda assim, a comparação também evidencia uma diferença importante: onde A Mentira encontrava personalidade e espontaneidade mesmo dentro de uma fórmula bastante conhecida, seu filme mais recente parece mais dependente das próprias convenções que domina. Gluck sabe exatamente como conduzir esse tipo de narrativa, mas nem sempre demonstra a mesma disposição para subvertê-la.

A leveza que sustenta uma comédia romântica também pode ser sua maior armadilha. O gênero costuma evitar mergulhos mais profundos justamente para preservar o encanto, mas isso não impede que temas como rejeição, solidão e frustração encontrem espaço dentro de uma história que pretende fazer rir. Gluck entende essa necessidade de equilíbrio e procura conduzir a trama entre diferentes registros, permitindo que situações absurdas convivam com momentos de maior vulnerabilidade. O resultado, porém, é menos provocador do que sua premissa sugere: o filme chega perto do estranho, ensaia alguma melancolia e acena para uma discussão política, mas quase sempre recua antes de explorar plenamente qualquer uma dessas possibilidades.

Não é difícil entender por que Will Gluck parece um diretor particularmente adequado para tentar devolver algum fôlego à comédia romântica de estúdio. Seus filmes sabem ser movimentados, acessíveis e claramente conscientes de que estão trabalhando dentro de uma tradição bastante conhecida. Nesta produção, essa familiaridade aparece acompanhada por uma ambientação ligeiramente distópica, algumas excentricidades e personagens que carregam suas próprias frustrações, elementos que dão ao filme uma identidade um pouco mais específica. Ainda assim, por mais que essas escolhas afastem o longa da completa impessoalidade, elas nem sempre são desenvolvidas o bastante para que ele deixe de parecer uma variação competente de algo que já conhecemos.

Em uma realidade em que o contato entre pessoas se tornou cada vez mais fácil, mas a construção de qualquer vínculo verdadeiro parece exigir um esforço desproporcional, “Só Por uma Noite” encontra seu ponto mais interessante. O filme reconhece a frustração de quem se acostumou a encontros rápidos, expectativas quebradas e relações que raramente ultrapassam a superfície. Allie e Owen representam justamente esse paradoxo: duas pessoas desencantadas, cheias de inseguranças e longe de qualquer ideal romântico, mas que ainda se permitem acreditar que talvez exista alguma coisa além do próximo encontro. É uma ideia simples, e talvez seja justamente nessa simplicidade que o longa encontre seus momentos mais honestos.