A maioria das vezes quando vamos assistir um filme o que nos mantem interessado é o slogan que a distribuidora usa para chamar nossa atenção, “dos mesmos criadores…”; “do renomado diretor…” e assim boa parte dos expectadores se convence a ir ao cinema para acompanhar tal projeção, em “Fale Comigo”, estreia na direção dos irmão gêmeos Danny e Michael Philippou temos precisamente “das sensações do YouTube…”, possivelmente não é exatamente a frase que você quer ouvir para te convencer a consumir um filme, no entanto, julgar o livro pela capa aqui é um erro tremendo, já que os gêmeos criam um grande hit para o gênero de terror.
O filme segue Mia, interpretada por Sophie Wilde em seu primeiro trabalho como protagonista. Mia tem dezessete anos e está lidando com a perda de sua mãe. Ela está cansada da presença negativa de seu pai e vive mais na casa de sua melhor amiga Jade (Alexandra Jensen). No entanto, quando um vídeo de mídia social de uma possessão espiritual se torna viral na escola, Mia vê uma oportunidade de se distrair da escuridão que a cerca. Ela convence a melhor amiga, o irmão mais novo dela, Riley (Joe Bird) e Daniel (Otis Dhanji) — seu ex-namorado e agora atual de Jade — para se juntar a ela relutantemente na próxima conjuração espiritual.
O grupo de amigos logo descobre que pode ficar temporariamente possuído usando uma mão embalsamada de cerâmica que supostamente foi feita com o braço decepado de um médium. O problema é que eles devem exorcizar o espírito em 90 segundos, ou ele tentará ficar no corpo da pessoa. Mia, por sua vez, usa a frase ‘fale comigo’ e é instantaneamente dominada por uma entidade que assume o controle de seu corpo. Animados com a experiência, o grupo de amigos continua realizando mais e mais sessões até que um deles inevitavelmente vai longe demais.
Particularmente falando, “Fale Comigo” é uma das melhores produções de horror que surgiu nos últimos anos, já consigo colocar o longa dos gêmeos Philippou junto com os filmes de terror sensação que surgiram nesses últimos anos, “Hereditário”, “Midsommar”, “A Bruxa”, “Corra!” e “Nós”. Ele é menos experimental do que todos esses citados, se assemelha mais a filmes de horror que possuem adolescentes, no entanto ele oferece uma nova reviravolta nesse subgênero de terror adolescente que explora as complexidades do luto e a transição da infância para a idade adulta.
Quando eu falo em inovação, não estou exagerando. Na maioria das vezes nesses filmes de possessão o espirito possui um personagem sem motivos nenhum, aqui a dupla trás o conceito do ouija, jogo do compasso, mas de uma maneira atualizada, essa peça em forma de antebraço, punho e mão é mais atraente e constrói um conceito visual de uma marca, além disso ainda brincam sobre a origem do objeto, que não é explicado aqui, mas tem tudo para ser explicado em uma outra produção.
O único obstáculo que o longa-metragem poderia ter é possuir um elenco cheio de atores “inexperientes” que vivem adolescentes repleto de emoções. No entanto, os irmãos Philippou se saem muito bem aqui. Sophie Wilde oferece uma atuação de destaque como Mia, ela pode interpretar tanto uma adolescente comum quanto uma pessoa ferida, brincalhona e desequilibrada, cheia de profundidade e nuances. Outros membros do elenco também apresentam atuações fortes, os recém-chegados Alexandra Jensen, Otis Dhanji, Joe Bird, Zoe Terakes e a única atriz conhecida do filme, Miranda Otto, que interpreta a mãe dos amigos de Mia.
Outro ponto positivo é a fotografia de Aaron McLisky que utiliza movimentos de câmera bem estilizados e ainda acrescenta uma paleta de cores que constrói adequadamente um visual bastante límpido, deixando de lado uma escuridão que estamos acostumados a presenciar no gênero. Os cineastas fizeram um ótimo trabalho ao criar uma sensação de tensão e desconforto ao longo do filme, e os sustos (principalmente) práticos são eficazes sem serem excessivamente sangrentos.
O que mais agrada aqui são as analogias que o roteiro utiliza ao seu favor. Analogias essas que conversam muito sobre o luto. Em um determinado momento Mia encontra um animal atropelado na estrada nisso ela tem que decidir entre acabar com o sofrimento dele ou deixar que ele morra por conta própria, minutos mais adiante Mia se encontra na mesma situação, sendo com uma pessoa importante para ela.
Explorar a adolescência e o luto pode ser uma fórmula que já foi testada pelo o gênero de terror, mas “Fale Comigo” prova que, se bem feito, não há razão para não repetir essa fórmula. Com o empurrão certo ou o boca a boca sólido, o filme pode se transformar em uma franquia de terror adolescente de sucesso que consegue transmitir habilmente sustos e uma mensagem ao público jovem em igual medida. Aqui fica minha contribuição para isso acontecer.