Duas décadas depois de redefinir o terror pós-apocalíptico com fúria incontrolável e corredores desfigurados pela raiva, Danny Boyle e Alex Garland retornam ao universo que ajudaram a moldar. “Extermínio: A Evolução” surge como uma continuação tardia e talvez até inesperada da saga que marcou uma geração. Em um cenário em que pandemias deixaram de ser apenas ficção para se tornar memória recente, a dupla tenta mais uma vez misturar adrenalina, crítica social e horror existencial. O resultado é ao mesmo tempo ambicioso e irregular: uma obra que acerta ao ampliar a escala e atualizar os horrores do vírus, mas que também tropeça ao exagerar certas escolhas narrativas e visuais, comprometendo a imersão. Ainda assim, mesmo com suas falhas, o retorno é pulsante e traz consigo a tensão e o caos que fizeram do original um marco do gênero.
“Extermínio: A Evolução” se abre de forma ambiciosa, mas tropeça em sua própria ousadia. O prólogo, ambientado nas névoas cinzentas das Terras Altas da Escócia, tenta mesclar horror e ironia ao mostrar crianças em pânico buscando consolo nos Teletubbies enquanto o caos toma conta do mundo lá fora. A sequência evolui para um encontro macabro entre um garoto e seu pai, um bispo enlouquecido pela fé, que enxerga a carnificina dos infectados não como ruína, mas como redenção divina. É um início carregado de simbolismo, mas sabotado por uma escolha musical desastrosa, onde o uso gratuito de música pop mina a tensão e transforma o impacto dramático em desconforto involuntário. Passado o prólogo, o filme avança para o presente distópico: a Europa está curada, mas o Reino Unido foi trancado à chave, isolado como uma ferida infecciosa. Neste cenário de exclusão, Boyle posiciona Lindisfarne como um abrigo improvável, uma ilha mítica protegida pelas marés e pela crença de que a esperança pode resistir até mesmo ao contágio da fúria. É ali que a narrativa se ancora, em uma falsa paz cercada pelo passado não enterrado.
Enquanto Jamie (Aaron Taylor-Johnson) e Spike (Alfie Williams) cruzam as fronteiras do continente devastado, enfrentando hordas de sloughs que se arrastam como ecos viscosos da antiga humanidade, um novo temor cresce silenciosamente nas sombras: os Alfas, infectados com inteligência estratégica, força descomunal e uma crueldade metódica, estão organizando territórios, controlando outros infectados e desafiando a ideia de que a civilização acabou. Spike, cada vez mais calejado, começa a perceber que a missão de seu pai talvez não seja apenas um rito de passagem, mas sim uma obsessão enraizada em culpa e medo. Isla (Ella Hunt), a mãe, permanece na ilha, cada vez mais perdida em sua mente fragilizada, oscilando entre surtos de lucidez e delírios onde confunde passado e presente, realidade e lembrança. Ainda assim, algo nela resiste, um instinto materno que pressente o perigo que cerca o filho. À medida que pai e filho avançam, a linha entre homem e monstro se torna indistinta, e o verdadeiro terror pode não ser aquilo que está infectado, mas o que sobreviveu.
O filme de Danny Boyle possui algumas jornadas que, no final, fazem refletir sobre o que o roteiro de Garland está tentando dizer ao espectador. Pois bem, se existe uma colônia, como em todo filme de zumbi, é preciso passar por um treinamento para os mais jovens, os futuros combatentes. Spike está no centro dessas duas jornadas: a primeira é o seu treinamento, e a segunda é uma jornada criada por ele mesmo, uma busca para saber o que ocorreu com sua mãe. As duas jornadas são compreensíveis, mas suas conclusões deixam a desejar no quesito consequências.
O filme de Danny Boyle apresenta jornadas que, ao final, provocam reflexões sobre a mensagem que o roteiro de Alex Garland busca transmitir ao espectador. Como em toda narrativa de zumbis, há uma colônia, e com ela a necessidade de treinar os mais jovens para se tornarem os futuros combatentes. Spike está no centro de duas trajetórias: a primeira é seu processo de treinamento; a segunda, mais pessoal, é uma jornada em busca de respostas sobre o que ocorre com sua mãe. Embora ambas as jornadas façam sentido dentro da proposta da história, suas resoluções carecem de impacto, especialmente no que diz respeito às consequências narrativas.
No centro do caos e da carnificina, o que move a narrativa não são apenas os monstros ou a urgência da sobrevivência, mas a força do laço entre mãe e filho. É essa motivação íntima que transforma a jornada de Spike em algo maior do que uma simples travessia em território hostil. Ao enfrentar o desconhecido, ele não apenas desafia as ameaças externas, como os infectados e a degradação humana, mas também mergulha em um processo de amadurecimento forçado, no qual cada revelação o distancia da inocência e o aproxima de uma verdade mais crua e complexa sobre o mundo e sobre si mesmo.
É curioso perceber como os atritos criativos entre Alex Garland e Danny Boyle se refletem diretamente na obra que entregam. A direção acelerada e crua de Boyle colide com a ambição mais introspectiva de Garland, resultando em um filme que por vezes soa esquizofrênico, oscilando entre a urgência brutal do apocalipse e tentativas quase poéticas de comentário social e psicológico. A falta de sutileza na condução visual, algo que Garland já criticava publicamente, aparece aqui como um ruído constante, diluindo o impacto de momentos que poderiam ser mais sutis e memoráveis.
Felizmente, há um ponto de equilíbrio que sustenta o filme: Alfie Williams. Com apenas 14 anos, o jovem ator carrega o peso dramático da história com uma entrega surpreendentemente madura. Enquanto veteranos orbitam em papéis muitas vezes funcionais, Williams brilha com uma intensidade que mantém o espectador conectado, mesmo nos momentos em que o roteiro se perde. Sua presença confere humanidade a um mundo dilacerado, funcionando como âncora emocional em meio ao caos visual e temático que marca esta terceira entrada da franquia.
No fim, “Extermínio: A Evolução” é um recomeço imperfeito, mas promissor. As falhas estão lá, excessos estilísticos, ritmo desigual, simbolismos atropelados, mas também estão as sementes de algo maior. Com “O Templo dos Ossos” no horizonte, há espaço para evolução, desde que a parceria criativa entre Garland e Boyle encontre harmonia e não dissonância. Se conseguirem isso, talvez essa nova trilogia não apenas sobreviva ao peso de suas origens, mas se torne essencial em sua própria era de horror.