A cineasta chinesa Chloé Zhao ainda pode ser considerada uma diretora de carreira relativamente curta. Após alguns curtas-metragens, ela deu início à sua trajetória nos longas em 2015 e, desde então, realizou apenas quatro filmes, número pequeno, mas suficiente para afirmar que, em pouco tempo, Zhao já experimentou praticamente todos os extremos possíveis da indústria cinematográfica. Do cinema independente ao auge de Hollywood, conquistou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção no Oscar de 2021 com “Nomadland”. Em seguida, trilhou um caminho inesperado para aqueles que se sentiam profundamente conectados ao seu cinema autoral, ao se unir à Marvel/Disney para dirigir “Eternos”, um projeto de grande escala que dividiu opiniões. Agora, com “Hamnet”, seu quinto longa-metragem, Zhao retorna a um território mais íntimo e sensível, abraçando novamente seu estilo contemplativo em uma obra que pode ser compreendida como uma delicada fábula shakespeariana.
Ambientado na Inglaterra elisabetana, “Hamnet” apresenta Agnes como uma figura que escapa às convenções sociais de seu tempo. Interpretada por Jessie Buckley, ela surge como alguém profundamente conectada ao mundo natural, dona de um saber intuitivo que nasce da observação, da escuta e da experiência herdada entre gerações de mulheres. É nesse espaço afastado das normas da aldeia, entre árvores, pássaros e silêncios , que William Shakespeare, vivido por Paul Mescal, cruza seu caminho. O encontro entre os dois não se constrói a partir de discursos grandiosos, mas de um reconhecimento quase instintivo: ele vê nela algo que a comunidade teme e tenta nomear como superstição, enquanto ela reconhece nele uma curiosidade rara, aberta ao inexplicável. Chloé Zhao filma essa aproximação com delicadeza, deixando que o afeto floresça lentamente, envolto em uma atmosfera onde amor, natureza e mistério se confundem, como se o vínculo entre Agnes e William estivesse destinado a existir à margem do mundo que os cerca.
A gravidez de Agnes desencadeia uma série de tensões que colocam em evidência os limites da aceitação familiar. Os pais de William Shakespeare, Mary e John (Emily Watson e David Wilmot), reagem com evidente desconfiança, observando a jovem mais como uma ameaça à ordem doméstica do que como parte legítima da família. É Bartholomew (Joe Alwyn), irmão de Agnes, quem atua como mediador, articulando um acordo financeiro que viabiliza o casamento e transforma o afeto dos dois em um compromisso formal. Ao se mudar para a casa dos Shakespeare, Agnes passa a enfrentar uma convivência marcada por atritos, especialmente com Mary, enquanto William demonstra crescente desconforto ao vê-la envolvida nos assuntos do negócio de couro da família, como se sua presença ali ferisse sua autonomia e intensificasse conflitos internos que ele ainda não sabe nomear.
Indiretamente, “Hamnet” também se aproxima da figura de William Shakespeare, ao sugerir como sua relação com Agnes alimenta ideias e emoções que mais tarde ecoariam em obras como “Romeu e Julieta”. Ainda assim, é fundamental compreender que o filme não se propõe a ser uma cinebiografia do dramaturgo. Trata-se, antes, de uma adaptação do romance homônimo de Maggie O’Farrell, que desloca o foco da genialidade pública de Shakespeare para as experiências íntimas que orbitam sua vida. Ao lado de Chloé Zhao, O’Farrell assina o roteiro do longa, reforçando essa perspectiva sensível e literária que privilegia sentimentos, memórias e ausências em vez de fatos históricos convencionais.
Como já mencionado, após um breve desvio por um cinema de grande escala e glamour, sustentado por orçamentos elevados, Chloé Zhao retorna, em “Hamnet”, à estética realista que marcou e popularizou seus trabalhos anteriores. Sua construção da Inglaterra do final do século XVI é profundamente particular, mais sensorial do que histórica, interessada menos na reconstituição factual e mais na vivência emocional daquele espaço e tempo. Agnes e William, embora unidos por um amor intenso, são retratados como indivíduos de naturezas distintas, cujas diferenças inevitavelmente geram pequenos atritos. Zhao alcança essa complexidade não apenas ao estabelecer desde cedo um tom nada convencional, mas também ao extrair de seu elenco atuações surpreendentemente humanas, que ancoram o filme em uma sensação constante de intimidade e verdade.
Não é exagero afirmar que Jessie Buckley e Paul Mescal entregam aqui algumas de suas performances mais fortes até o momento, possivelmente as melhores de suas carreiras. Ambos se lançam emocionalmente aos personagens com uma intensidade dramática que nunca escorrega para o excesso. Nada soa falso ou forçado: juntos, conseguem traduzir com precisão a dor, o afeto e as contradições que atravessam Agnes e William. Emily Watson e Jude Hill, mesmo tão jovem, também encontram momentos de grande brilho, sustentando cenas decisivas com sensibilidade e presença. O resultado é um elenco extremamente afiado, em plena sintonia com o tom íntimo e contido que o longa-metragem nos propõe.
Ainda assim, é possível que parte do público não se deixe envolver por completo pelo peso emocional que o filme carrega, percebendo-o como excessivamente intenso, ou até exaustivo, ao longo de seus 126 minutos de duração. Nos momentos finais, porém, Jessie Buckley alcança um nível de entrega que transcende a atuação e se torna profundamente comovente. Com a fotografia sensível de Łukasz Żal e a trilha sonora de Max Richter, capaz de conduzir o espectador a um estado quase hipnótico de emoção, Chloé Zhao constrói uma obra que reafirma sua singularidade. Mais uma vez, a diretora nos conduz diante de uma experiência estética e narrativa bastante preciosa.