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“Inexplicável”, de Fabrício Bittar se simplifica em uma jornada de fé e superação

“Inexplicável”, de Fabrício Bittar se simplifica em uma jornada de fé e superação

Em um mundo onde a lógica domina as explicações para os fenômenos naturais, a religião e a fé, por sua vez, oferecem consolo e esperança diante do desconhecido. Inexplicável, dirigido por Fabrício Bittar, explora essa tensão ao apresentar uma história real de superação que desafia os limites da compreensão científica. A trama, inspirada no livro O Menino que Queria Jogar Futebol: Uma História de Fé e Superação, nos apresenta Gabriel Varandas (Miguel Venerabile), um menino de 8 anos que, após sofrer um desmaio durante uma partida de futsal, enfrenta uma grave crise de saúde que o coloca à beira da morte. No entanto, a surpreendente recuperação de Gabriel, sem explicação médica, suscita reflexões sobre o poder da fé e os mistérios que permeiam os limites da ciência. O filme, enquanto explora a fragilidade da vida e a força da crença, convida o espectador a questionar até onde a razão pode ir diante do impossível.

Com a promessa de transmitir uma mensagem de fé e superação, Fabrício Bittar conduz Inexplicável com a intenção de levar o público a uma jornada emocional, onde esperança e mistério caminham lado a lado. A fé, vivida principalmente por Yanna, mãe de Gabriel (interpretada por Letícia Spiller), é o alicerce que sustenta a narrativa. Diante da realidade de ver seu filho em uma situação desesperadora, onde a medicina não oferece mais respostas, Yanna enfrenta o dilema de aceitar os limites da ciência ou entregar-se a uma crença que transcende qualquer lógica. Bittar não se restringe a uma representação simplista da fé; ao contrário, ele explora as complexas emoções de uma mãe que, movida por uma esperança inabalável, desafia os próprios limites da razão para acreditar na possibilidade de um milagre.

O diretor se apoia na atuação de Letícia Spiller, que confere à personagem uma força silenciosa, mas tangível, para construir um retrato sensível e profundo da fé. Yanna não é apenas a protetora de Gabriel, mas também a personificação de uma luta interna entre dúvida e certeza. A escolha de um ritmo narrativo que respeita a fragilidade humana enquanto exalta os momentos de entrega e confiança guia o público por um caminho de introspecção. Assim, a superação de Gabriel vai além de sua recuperação física: é também sobre o poder da crença, da fé inabalável de uma mãe e da possibilidade de que, às vezes, o impossível esteja mais próximo do que imaginamos.

Em contraste, Marcus, pai de Gabriel (interpretado por Eriberto Leão), oferece apoio e faz o possível por seu filho, mas está longe de ser uma pessoa religiosa. Enquanto Yanna e outros personagens sustentam sua fé, Marcus se apoia exclusivamente nos diagnósticos médicos. Essa oposição poderia ter sido mais bem explorada para enriquecer o conflito central entre fé e ciência.

Apesar de bem-intencionado, o longa-metragem perde a oportunidade de explorar mais profundamente o confronto entre fé e religião, tema central que poderia ter adicionado maior profundidade à narrativa. A maior parte do filme é moldada em torno da ideia de fé e do impacto de um milagre na vida de Gabriel. Contudo, há um momento em que o discurso se desvia: diante da piora do quadro de Gabriel, o Dr. Christian (André Ramilho) sugere um novo tratamento científico. Embora essa intervenção abra espaço para discutir a coexistência entre ciência e espiritualidade, a narrativa logo retorna à fé como pilar principal. Isso acaba relegando a abordagem científica a um papel secundário, enfraquecendo o equilíbrio entre os dois mundos.

Nos créditos finais, o filme apresenta fotos dos personagens reais, revelando que Yanna e Marcus eram um casal jovem quando enfrentaram o momento delicado relacionado à saúde de Gabriel. Isso destaca outra oportunidade perdida pelo diretor: teria sido interessante explorar como a juventude do casal influenciou suas escolhas e sua experiência diante de uma crise tão impactante.

Em última análise, Inexplicável, de Fabrício Bittar, não escapa de clichês ao se voltar para o público religioso. Embora emocione e arranque algumas lágrimas, a obra permanece limitada em sua abordagem. Quem tem fé provavelmente terminará o filme ainda mais fortalecido em sua crença em milagres e no mantra: “A esperança é a última que morre.”