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“Karatê Kid: Lendas”, de Jonathan Entwistle, não revoluciona, mas acerta ao reconhecer de onde veio e para onde pode ir

“Karatê Kid: Lendas”, de Jonathan Entwistle, não revoluciona, mas acerta ao reconhecer de onde veio e para onde pode ir

“Karatê Kid: Lendas” chega como o mais novo capítulo na onda das continuações de legado que Hollywood tanto aprecia — histórias que revisitam mitos do passado para apontar caminhos para o futuro. Dirigido por Jonathan Entwistle, o filme segue a tradição de reunir nomes consagrados, agora amadurecidos pelo tempo, com uma nova geração de protagonistas em formação. Assim como vimos em “Star Wars”, “Creed”, “Top Gun: Maverick” e “Blade Runner 2049”, a nostalgia aqui não é apenas um artifício estético: é o solo onde se planta uma narrativa contemporânea, pronta para herdar e transformar. Em “Karatê Kid: Lendas”, o legado não apenas ressurge — ele se reinventa no confronto entre passado e presente.

No mais novo capítulo da amada franquia “Karatê Kid”, mestres lendários das artes marciais se reencontram para dar vida a uma narrativa original. A trama acompanha Li Fong, vivido por Ben Wang, um jovem prodígio do kung fu que deixa sua terra natal ao lado da mãe para iniciar uma nova vida em Nova York, estudando em uma escola de elite. Lá, ele cria laços com uma colega de classe e com o pai dela, encontrando um breve refúgio emocional em meio à adaptação. No entanto, essa tranquilidade é abalada quando Li cruza o caminho de um campeão local de caratê, cuja presença ameaça sua paz recém-conquistada. Determinado a se defender e a encontrar seu próprio caminho, o jovem embarca em uma jornada intensa rumo a um torneio de artes marciais decisivo. Nessa trajetória, ele recebe o treinamento e os ensinamentos do calmo e experiente Sr. Han, interpretado por Jackie Chan, e do icônico Daniel LaRusso, papel de Ralph Macchio — dois mestres de escolas distintas que agora se unem para preparar Li para um confronto em que passado e futuro colidem em pleno tatame.

Depois de se aventurar no formato de série com “Cobra Kai”, chegou mais uma vez o momento da franquia “Karatê Kid” retornar aos cinemas. Chan e Macchio estão juntos novamente e oferecem um abraço apertado no coração durante os 94 minutos da produção. O longa de Jonathan Entwistle segue a mesma estrutura narrativa de seus antecessores: um menino novo na cidade que se envolve com a namorada de um valentão e agora precisa lutar para conquistar sua paz. Claro que o roteiro, assinado por Rob Lieber, acrescenta novos elementos narrativos, especialmente ao redor de Victor (Joshua Jackson), pai de Mia (Sadie Stanley), interesse amoroso de Li.

“Karatê Kid: Lendas” se equilibra bem entre cenas de ação e uma pitada de humor. Parte dessas sequências é bem coreografada — é possível perceber um trabalho técnico bem desenvolvido — , mas a direção compromete algumas delas com ângulos confusos e cortes excessivos, o que torna difícil acompanhá-las. Em uma determinada cena, ambientada em um beco escuro, vemos o protagonista enfrentar três adversários ao mesmo tempo, e posso afirmar que essa sequência é uma singela homenagem aos antigos filmes protagonizados por Jackie Chan em sua juventude. Falando em Chan, ele retorna como Sr. Han em ótima forma, entregando as melhores cenas de ação do filme. Sua química com Ralph Macchio, no papel de Daniel, é excelente, rendendo momentos bastante engraçados.

Ben Wang assume o papel de Li Fong com segurança, conduzindo o personagem pelas diferentes camadas da história. Ele mostra boa presença tanto nos momentos cômicos quanto nos mais intensos, além de executar com competência as sequências de luta, que ganham força graças à sua entrega física e expressiva. Já Aramis Knight interpreta Connor, mas o personagem tem pouca presença ao longo da narrativa. O roteiro não o desenvolve com consistência, o que enfraquece seu papel como antagonista e limita o impacto que ele poderia causar na trama.

Talvez esse seja o maior problema de “Karatê Kid: Lendas”, o filme desenvolve bem alguns pontos narrativos e até personagens coadjuvantes, mas acaba deixando de lado outros que mereciam mais atenção. Em determinado momento, é possível perceber a produção acelerando o ritmo dos acontecimentos, como se a sensação de desfecho se aproximasse e o roteiro tentasse, apressadamente, entregar mais informações ao espectador.

Sendo bem franco, por mais que surjam inúmeras sequências dessa franquia, dificilmente alguma superará o longa-metragem de 1984. O primeiro “Karatê Kid”, dirigido por John G. Avildsen, é icônico e envelheceu muito bem com o passar dos anos. O protagonista, Daniel LaRusso, com sua inocência, representa perfeitamente o típico garoto sem malícia que sofreu bullying na escola e encontrou nas artes marciais uma forma de se defender.

Em última análise, “Karatê Kid: Lendas” encontra seu lugar ao equilibrar homenagem e renovação. Para os fãs de longa data, as referências espalhadas ao longo da trama funcionam como pequenos reencontros com o passado, enquanto os novos personagens abrem possibilidades para a franquia seguir em frente. Apesar de algumas falhas no desenvolvimento de certos arcos, o longa cumpre sua missão: celebrar o legado e apresentar uma nova geração pronta para continuar a história. Não revoluciona, mas acerta ao reconhecer de onde veio — e para onde pode ir.