Provavelmente você deu boas risadas com a franquia “Se Beber, Não Case!” e com outros filmes de comédias protagonizados por homens onde todos os personagens aparentam viver a melhor aventura de suas vidas. Isso acaba transmitindo um desejo para o espectador de querer viver o mesmo. Evidentemente quem se identifica mais com essas experiências são homens, já que as histórias contadas nesses filmes são vividas por homens. Óbvio que existe filmes de comédias voltado para mulheres, mas “Loucas em Apuros”, dirigido por Adele Lim é um grande besteirol que não tenta inventar a roda do gênero de comédia, mas sabe usar muito bem o universo feminino ao seu favor.
Loucas em Apuros, as amigas Audrey (Ashley Park), Lolo (Sherry Cola), Kat (Stephanie Hsu) e Deadeye (Sabrina Wu) se unem após uma viagem a negócios mal-sucedida. Juntas, as quatro vão experienciar uma jornada épica pela Ásia em busca de uma das mães biológicas delas, passando por diversos momentos de autodescoberta, estreitando ainda mais seus laços de amizade e aprendendo a amar a si mesmas antes de qualquer coisa.
Se fosse para definir “Loucas em Apuros” em uma frase, eu usaria aquela velha expressão ‘não julgue o livro pela capa’. Em tempos de fragilidade masculina, ver o cartaz de um filme de comédia que possui quatro mulheres como protagonistas, pessoas podem tirar conclusões precipitadas sobre o tipo de humor que a produção utiliza. Possivelmente deve se imaginar piadas sobre como mulheres são superiores a homens e entre outras coisas a mais, mas não é bem isso que acontece aqui.
O roteiro assinado pela própria Adele tem altos e baixos, mas o ápice dele é mostrar e ilustrar de forma primorosa situações cômicas do universo feminino. Não que isso seja uma surpresa, mas Lim coloca suas personagens para viver situações bem óbvias que mulheres já viveram, vivem ou até mesmo tem vontade de viver, como ter tatuagens em locais mais ousados, ter relações sexual com mais de um parceiro ao mesmo tempo e entre outras coisas. Repetindo, não que isso seja algo que surpreenda, mas trazer isso de forma bem humorada nos rende boas risadas.
O destaque do filme é Deadeye, personagem de Sabrina Wu. No papel, o arco de Deadeye deve ser menos impactante do que o dos outros personagens. Ela está aprendendo a fazer conexões humanas essenciais, e não está preocupada o que todo mundo deseja viver — a identidade de Wu como um ator não-binário acrescenta riqueza ao papel.
Antes de qualquer situação de humor, “Loucas em Apuros” também é uma lição sobre amizade. Aqui o companheirismo vai além de qualquer coisa. Audrey e Lolo se conhecem desde a infância e seguiram caminhos diferentes devido seus gostos e estilo de vida profissional, mas nem por isso a amizade que possuem chegou ao fim, uma está do lado da outra para ajudar em qualquer situação. Esse arco entre às duas repete um um vício de roteiro de comédia romântica, que é: uma hora relação estremece e cada um vai para o seu lado, mas depois o casal reata e vivem felizes para sempre. Sendo que aqui não existe um romance.
Em algum momento o filme deixa a comédia de lado, além do tema amizade, outras questões discutidas aqui é família e importância cultural, isso é mais uma progressão da história e não um afastamento da comédia. Pode não haver nenhuma surpresa real em como o ato final se desenrola, mas é muito satisfatório a simplicidade conseguir nos render boas risadas e sensações de leveza.
Aqueles que procuram uma comédia atrevida vão se satisfazer, mas o filme de Lim também prova, sem sombra de dúvida, que os conceitos de raça e etnia de forma alguma limitam a comédia moderna. O que filmes como “Loucas em Apuros” exigem é esforço — uma vontade de pensar sobre o impacto que a obra pode causar, desenvolver suas piadas e encontrar o humor correto para agradar a todos.