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“Mickey 17”, de Bong Joon-Ho, cria uma crítica ácida ao capitalismo em ficção científica protagonizada por Robert Pattinson

“Mickey 17”, de Bong Joon-Ho, cria uma crítica ácida ao capitalismo em ficção científica protagonizada por Robert Pattinson

O audiovisual coreano se tornou uma grande tendência nos últimos anos, com os doramas ganhando enorme popularidade. É um fato. Seus consumidores abraçaram a proposta e têm consumido diversos tipos de doramas de forma constante. Contudo, no cinema, Bong Joon-ho é, se não o principal, um dos maiores responsáveis por transformar o cinema coreano em uma sensação mundial. Todos os seus filmes abordam conflitos de classe e os efeitos devastadores que esses conflitos têm sobre os seres humanos. Seu último trabalho, “Parasita”, vencedor do Oscar de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, foca na guerra de classes entre uma família pobre, que lentamente se envolve com uma família rica. Seis anos se passaram desde o lançamento de “Parasita”, e agora Bong nos apresenta seu mais recente projeto, “Mickey 17", uma adaptação do romance “Mickey 7", de Edward Ashton.

Mickey Barnes (Robert Pattinson) é um homem descartável enviado em uma missão suicida para colonizar o planeta gelado Niflheim. Como parte de um grupo substituível, cada membro é designado a tarefas arriscadas e, quando morre, suas memórias são transferidas para um novo corpo, um clone que continua a missão sem interrupções. Após seis mortes, Mickey começa a perceber que sua existência não é tão simples quanto parece. Confrontado com os segredos sombrios por trás de sua repetitiva jornada, ele se vê diante de escolhas que podem abalar a ordem estabelecida e alterar o destino da missão. Trata-se de uma história de sobrevivência, identidade e revolução, no coração de um mundo alienígena.

O filme começa com uma paisagem gélida, onde a neve espessa cobre o rosto do protagonista, interpretado de forma cômica por Robert Pattinson. Antes de encontrar um fim brutal, Mickey remove a neve dos óculos, preparando o público para uma cena marcada pelo sangue e pelas vísceras, características do cinema de Bong. Esse momento inicial estabelece o tom de uma trama repleta de reviravoltas, conduzida por uma narrativa envolvente que domina a primeira metade do filme, mergulhando o espectador na trajetória do protagonista.

Desiludido com a vida na Terra, Mickey considerou partir para o espaço após investir, junto com seu amigo Timo (Steven Yeun), em um negócio de macarons – um doce que ele acreditava estar superando os hambúrgueres em popularidade. No entanto, quando a dupla não consegue pagar uma dívida com um agiota impaciente, eles se veem sem opções e embarcam clandestinamente em uma nave governamental. A missão é liderada pelo autoritário e barulhento Kenneth Marshall (Mark Ruffalo), que comanda a tripulação rumo a Niflheim, um planeta habitado por criaturas gigantes chamadas “creepers”, que, apesar da aparência inofensiva, escondem segredos perigosos. Entre os passageiros está Ylfa (Toni Collette), esposa de Kenneth e maître d’ da expedição, cujo passatempo peculiar é triturar ingredientes exóticos para criar molhos – incluindo os órgãos dos próprios creepers.

Os ambientes minimalistas do filme remetem a “Expresso do Amanhã”, uma das primeiras incursões de Bong no cinema de língua inglesa, que retrata um trem onde a elite e os mais pobres lutam para sobreviver após o colapso ambiental da Terra. No entanto, com um orçamento mais robusto, graças à colaboração com a Warner Bros., a produção alcança um novo patamar visual. O design impecável de Fiona Crombie e os figurinos vibrantes de Catherine George, inspirados na pop art, dão vida ao elenco, infundindo uma dose de humor em cada cena.

No entanto, esse trabalho de Bong Joon-ho não se limita a se assemelhar apenas aos cenários de seus filmes anteriores. “Mickey 17" compartilha semelhanças com “Expresso do Amanhã” e “Okja” tanto na abordagem de temas quanto na criação de personagens caricatos. Se você conhece bem a filmografia de Bong, certamente reconhecerá o comportamento dos personagens desse filme, que se assemelham aos de suas obras anteriores. Infelizmente, o diretor não quis explorar profundamente a fórmula de seu maior sucesso.

O filme carrega influências visíveis do cinema noir dos anos 1940, especialmente das obras de diretores como Alfred Hitchcock. A marca do mestre do suspense se reflete na estrutura não linear da narrativa, no uso expressivo da profundidade de campo e em enredos carregados de dilemas existenciais. Bong presta uma homenagem explícita ao noir, principalmente na primeira metade do filme, onde a narração domina a história. A atmosfera remete ao desfecho iminente de “Pacto de Sangue”, de Billy Wilder, quando Walter Neff revê os eventos que levaram ao seu destino – técnica semelhante à usada por Wilder em “Crepúsculo dos Deuses”. Além disso, Bong incorpora elementos da era do cinema mudo, inspirando-se nas acrobacias coreografadas de Buster Keaton. A comicidade física de Pattinson remete a momentos de “The General”, onde Keaton orquestra cenas grandiosas, incluindo a destruição espetacular de um trem.

Dado o contexto atual, é quase impossível não perceber paralelos com eventos globais, como a ascensão do autoritarismo. Certas figuras evocam imediatamente nomes conhecidos, incluindo um que remete a Elon Musk. A obsessão de Kenneth pela destruição de criaturas inofensivas ressoa com a retórica xenofóbica que ganha força ao redor do mundo. Além disso, o design detalhado dessas entidades criadas em CGI carrega um forte traço humanista, remetendo ao trabalho de Hayao Miyazaki. Assim como o lendário animador japonês, que imaginou mundos onde a humanidade e a natureza coexistem, Bong parece compartilhar essa visão, propondo um equilíbrio semelhante em sua narrativa.

A verdadeira ameaça à humanidade é a fragmentação de nossa existência sob o capitalismo tardio. O sistema estimula o isolamento, enfraquecendo a possibilidade de organização coletiva e de mudanças estruturais para um futuro mais sólido. Mickey entrega sua vida como um mero descartável, mas, no processo, perde qualquer controle sobre seu próprio destino. Bong recorre habilmente às convenções da velha Hollywood para dar continuidade ao seu legado de filmes com forte consciência de classe, desafiando o status quo de maneira instigante e inovadora.