Costumo dizer que não existe meio termo para Ridley Scott. Ele é capaz de nos entregar obras fascinantes como “Alien, o Oitavo Passageiro”, “Perdido em Marte”, “Blade Runner” e entre outros, mas também é capaz de nos propor enredos interessantes que acabam se tornando grandes frustrações. Ridley já nos mostrou que ele pode fazer grandes épicos, “Gladiador” é uma prova disso, dessa vez o cineasta decide dirigir “Napoleão”, e fazer a história de Bonaparte mais um dos seus projetos que deixa a desejar.
“Napoleão” é baseado na história real de Napoleão Bonaparte, interpretado por Joaquin Phoenix. O drama histórico tem dois focos principais: a ascensão do líder francês ao poder e seu turbulento relacionamento com sua primeira esposa, a imperatriz Joséphine, interpretada por Vanessa Kirby.
O filme dirigido por Scott é simples e direto ao ponto como a própria sinopse. A produção não enfeita para desenvolver sua história, ela coloca Napoleão em devidas situações sem ao menos fazer introduções para determinado fato histórico. De repente na tela aparecem nome do local e ano e pronto, ali começava um novo episódio da vida de Napoleão, que maioria das vezes ou sempre tem uma maneira de colocar em pauta o envolvimento dele com Joséphine.
Bem…segundo o filme de Scott, podemos dizer que Napoleão foi o último romântico. Brincadeiras à parte, o romance do casal ditava a vida de Napoleão e isso é bem desenvolvido aqui, talvez seja o que mais funciona durante os 158 minutos de produção. Napoleão respirava Joséphine perto ou longe, no entanto o casal vivia em um verdadeiro morde e assopra dentro da relação, no entanto, existe um grande porém, Joséphine não conseguia engravidar, e para alguém de grande importância como Napoleão era um grande problema e aqui esse acontecimento é discutido.
Não sabemos o quão verídico e fiel o roteiro de David Scarpa é, mas conseguimos encontrar grandes vácuos na história. Por exemplo existem personagens que em algum momento são cruciais na vida de Napoleão, eles aparecem por minutos e até mesmo segundos e depois desaparecem. Exemplo disso é a própria mãe de de Napoleão. Em uma conversa, Joséphine diz para Bonaparte não seria nada sem e ela e mãe dele, que isso pode ser uma grande verdade, mas a mãe quase não se encontra presente.
Lógico que não queremos ver uma produção fiel da vida de Napoleão, mas esperamos ver uma história concreta, bem amarrada e infelizmente esse filme não nos entrega isso. Em um certo momento Napoleão junto com sua tropa invade a Rússia e a história que sabemos sobre essa ida dele a Rússia é bem conturbada e não vemos esses transtornos em cena.
Sinto que o longa-metragem de Ridley Scott caiu na mesmice de boa parte das cinebiografias: preservar a imagem do personagem que está sendo discutida. Não tem outra afirmação além dessa. Apesar dos momentos Napoleão ser uma pessoa bem rude, acho que os poucos momentos não conseguem definir bem a personalidade dele. Phoenix é brilhante como sempre, ele chega ser cômico e nos faz gargalhar em algumas partes, tem momentos que o personagem não passa de uma sátira.
O Napoleão de Phoenix é profundamente narcisista. Com uma expressão que às vezes quase não muda, seu rosto transmite uma desconexão fria e indiferença ou um desejo melancólico. O desempenho poderoso de Joaquin oscila entre desagradável e carente, quebrado e impenetrável com tanta facilidade que ele dá a Napoleão esse toque sedutoramente psicótico que é impossível tirar os olhos dele.
Embora todo o filme seja rodado pelo diretor de fotografia Dariusz Wolski, um colaborador frequente de Scott, a execução das cenas de batalha é fenomenal. Desde panoramas amplos até close-ups de rostos, muitas vezes o que é transmitido não precisa de exposição. Culminando com a batalha final em Waterloo, eles aumentam ao longo do filme, cada um entregando um grau crescente de ferocidade detalhada de tirar o fôlego. Particularmente a cena de batalha no meio de uma nevasca é minha favorita.
Nem tudo está perdido em “Napoleão”, existem boatos que uma versão de ‘quatro horas’ vai chegar no streaming da Apple, se essa versão vai melhorar o filme de Scott só vamos descobrir depois, portanto é preciso avaliar esse corte que está nos cinemas, e como já dito, essas duas horas e meia de filme é bem decepcionante com lacunas vazias e que nitidamente tem uma história capenga. Cinebiografia é um gênero que vem decepcionando bastante e Ridley Scott não conseguiu espantar esse fantasma que assombra o gênero.