Em sua trajetória como cineasta, Kleber Mendonça Filho tem revelado um olhar cada vez mais apurado sobre o espaço, o som e as tensões sociais que compõem o tecido brasileiro. Desde o realismo inquieto de “O Som ao Redor” (2012), passando pela contundência política e fabular de “Aquarius” (2016) e pelo delírio coletivo de “Bacurau” (2019), o diretor vem lapidando uma linguagem própria que combina rigor formal e pulsão popular, ensaiando o equilíbrio entre o local e o universal. Essa evolução estética e narrativa se consolida em “O Agente Secreto”, seu novo longa-metragem, onde cada plano e cada silêncio parecem responder a um cinema em plena maturidade. Kleber articula aqui sua sensibilidade urbana e seu comentário social com uma confiança que transcende a denúncia: sua mise-en-scène é mais precisa, sua montagem mais fluida e sua dramaturgia mais interiorizada, resultando em uma obra que une todos os elementos de sua filmografia anterior em um gesto coeso e profundamente contemporâneo.
Em “O Agente Secreto”, Kleber Mendonça Filho desloca o espectador para o Recife de 1977, onde o passado e o presente se chocam sob o calor e o ruído do Carnaval. No centro dessa narrativa está Marcelo, um professor de tecnologia que tenta reescrever sua história após deixar para trás uma vida marcada por sombras e violência em São Paulo. Sua chegada à cidade, no entanto, logo se transforma em uma espécie de cerco silencioso: o olhar dos vizinhos, as paredes finas dos prédios e o som constante das ruas constroem uma atmosfera de paranoia que beira o fantástico. O que parecia um recomeço se converte em um labirinto de desconfianças.
Logo em sua chegada ao Recife, Marcelo se depara com uma imagem que define o tom moral e simbólico de “O Agente Secreto”: um corpo abandonado sob o sol, coberto por um jornal em um posto de gasolina. A cena, simples e brutal, antecipa o olhar do diretor sobre um país acostumado a encobrir a própria violência, literal e metaforicamente. O gesto de ocultar a morte com a manchete é também o de mascarar o caos sob a narrativa oficial. A partir daí, o filme se desdobra como um jogo de disfarces: Marcelo, tentando apagar seu passado, integra-se a uma vizinhança de rostos diversos, em que cada personagem parece guardar uma identidade oculta. Kleber constrói esse mistério com precisão quase literária, evitando explicações imediatas e deixando que a tensão se acumule em gestos, olhares e silêncios. Aos poucos, a dúvida se instala: estamos diante de um fugitivo, de um investigador ou de mais uma peça perdida em um sistema que vigia, manipula e apaga?
Nesse trabalho atual, o cineasta revela um lado mais provocador e experimental, brincando com o erotismo, a violência e o absurdo como caminhos para acessar o que há de mais inquietante em seu universo. Em uma das sequências mais surpreendentes do filme, de intensidade sexual e brutalidade gráfica, o diretor não apenas revisita o cinema de exploração dos anos 1970, mas o incorpora com autenticidade e inteligência. Ao lado da diretora de fotografia Evgenia Alexandrova, Kleber recria a textura visual daquela época com zooms abruptos, closes quase intrusivos e cortes que oscilam entre o grotesco e o cômico. Longe de soar como uma citação gratuita, essa estética anacrônica é usada como ferramenta narrativa: um modo de confrontar o espectador com o excesso, de romper a assepsia do cinema contemporâneo e de reafirmar que o passado, inclusive o das formas, ainda pode ser uma linguagem viva, pulsante e política.
As relações de Marcelo com os outros moradores do edifício formam o coração humano de “O Agente Secreto”. Cada um deles carrega uma história de fuga, silêncio ou resistência, do casal angolano que busca refúgio ao carismático líder comunitário Euclides, interpretado com doçura e firmeza por Robério Diógenes. À medida que Marcelo tenta se proteger de ameaças cada vez mais próximas, Wagner Moura constrói um retrato comovente de um homem cuja integridade o condena à clandestinidade. Enquanto isso, Dona Sebastiana, figura que serve de alívio cômico brilhantemente interpretada por Tânia Maria, proporciona momentos de leveza e humanidade que se tornam alguns dos pontos altos da narrativa.
Kleber Mendonça Filho entrelaça passado e presente com fluidez, revelando aos poucos o motivo da perseguição de Marcelo: sua coragem de enfrentar um oligarca. Entre lembranças e projeções, mais uma vez, Wagner Moura transita da fúria justa à serenidade calculada, do charme discreto ao medo contido, consolidando um conjunto de atuações que conferem profundidade, humor e complexidade a uma história já carregada de tensão.
Ao redor da atuação de Wagner Moura, “O Agente Secreto” revela-se uma obra de grande ambição histórica e estética, comparável, em sua precisão e densidade, a filmes como “Roma”, de Alfonso Cuarón. O cuidado de Kleber Mendonça Filho com a recriação do Recife de 1977 é evidenciado no design de produção de Thales Junqueira, que transforma detalhes como as icônicas cabines telefônicas em ovo em marcadores temporais instantaneamente reconhecíveis. Mas o filme vai além da fidelidade visual: por meio de diálogos afiados e de personagens que refletem a diversidade e as tensões sociais da cidade, Mendonça constrói um épico urbano que dialoga com as relações complexas entre norte e sul do país, ao mesmo tempo em que não se esquiva de apontar as cicatrizes históricas do racismo e da desigualdade. Cada escolha estética e narrativa reforça a sensação de que o passado não é apenas cenário, mas força viva, moldando a experiência de cada personagem e do próprio espectador.
O sangue é derramado, mas Kleber Mendonça Filho não trata o desfecho da história de Marcelo como um simples clímax ou reviravolta planejada. Em vez disso, ele olha além do encerramento narrativo e sugere que o título do filme talvez se refira a um jovem tentando compreender o passado, oferecendo aos que vivem no presente uma possibilidade de encerramento emocional. Essa habilidade de dialogar com o agora por meio de uma história centrada em um personagem de quase meio século atrás é o que torna “O Agente Secreto” um feito cinematográfico notável. As ficções que contamos a nós mesmos, as histórias que se deformaram com o tempo e se tornaram versões exageradas de si mesmas, carregam em seu núcleo uma verdade inescapável. Para Kleber, são muitas vezes as narrativas mais distantes do realismo que revelam, com maior clareza, quem somos e como nos confrontamos com nosso passado.