É evidente que antes de 1973 o gênero de horror já existia, porém, a partir desse ano surgiu um divisor de águas chamado ‘O Exorcista’, dirigido por William Friedkin. O filme de Friedkin marcou gerações e serve até hoje como referência para outras produções do gênero. ‘O Exorcista’ já teve algumas continuações, mas não sei dizer o quanto elas podem ser levadas a sério, mas 50 anos depois “O Exorcista — O Devoto” dirigido por David Gordon Green assumiu a carga de ser a continuação direta da versão clássica, entretanto falha miseravelmente.
Antes de qualquer coisa, o filme em si começa com um prólogo ambientado 13 anos atrás com Victor Fieldin (Leslie Odom Jr.) e sua esposa grávida visitando o Haiti. O casal enfrenta uma catástrofe ambiental que leva uma tragédia familiar que faz Victor ter uma escolha moral que ninguém gostaria de ter: salvar sua filha ou sua esposa; os médicos dizem a ele que não podem resgatar ambos. Pula para os dias atuais, e Fieldin é um pai solteiro que mora em uma comunidade suburbana, Fieldin é atencioso e protetor com sua filha Angela (Lidya Jewett), no entanto, como toda adolescente, a jovem de 13 anos é curiosa e tem vontade de se conectar com a mãe que ela nunca conheceu, a amiga Katherine (Olivia O’Neill) está disposta ajudar nessa missão. Após ficarem três dias desaparecidas, seguindo o pânico de seus pais sobre o paradeiro delas — os pais de Katherine interpretados por Norbert Leo Butz e a cantora de música country, Jennifer Nettles — as meninas são encontradas machucadas, com bolhas nos pés e sem memória do que aconteceu com elas.
Como já é de se esperar elas foram possuídas por demônios e de início para “curar” isso elas jogadas em instituições psiquiátricas, essa série de eventos desencadeia terror e desespero brutalmente visceral.
Existem inúmeras maneiras de se introduzir em “O Exorcista — O Devoto”, vamos pelo o caminho mais básico, a continuação direta de um clássico do gênero. Em minha percepção esse filme em geral não deve ser considerado como uma continuação, apesar de ele possuir elementos que sejam do filme de 73. Para ser direto, sem considerar isso um spoiler já que tem nos materiais de divulgação da longa, a personagem protagonista do primeiro filme Chris MacNeil (Ellen Burstyn), mãe de Regan (Linda Blais), está de volta e acaba sendo utilizada da maneira mais estupida aqui. Ela se tornou uma “grande” estudiosa sobre a prática do exorcismo, escreveu um livro sobre o caso dela e além disso também serve para convencer a Victor Fieldin acreditar no que está acontecendo com sua filha Angela.
Se tivessem cortado todas as cenas que Chris MacNeil está, o título do filme poderia ser apenas “O Devoto”, uma produção qualquer de terror que decide falar sobre possessão. MacNeil apesar de servir como alicerce em algum momento, não agrega em nada além disso.
O ato de exorcizar alguém é um tabu para a sociedade, é um assunto que não vemos ser discutido com frequência, o roteiro Danny McBride perde a oportunidade de discutir sobre isso, já que em determinado momento vemos a igreja católica se recusando permitir o exorcismo das duas meninas. Para solucionar isso dentro da trama, existe uma reunião de religiões para praticar tal ato, essa ideia é interessante, porém muito mal executada, já que os personagens envolvidos em tal questões são burros e não sabem o que estão fazendo ali. Quando um padre decide participar do ritual, ele acaba sendo o mais burro de todos.
‘O Devoto’ acaba mais sendo sobre a fé, crença e principalmente amor, acredite. Temos “lideres” religiosos de outras religiosos em ação e isso soa como engraçado, mas aqui se assemelha muito como os vingadores/liga da justiça das religiões, sem falar que até um ateu está envolvido nessa galhofa.
Em termos de produção cinematográfica, Green utiliza o trabalho de câmera simples, não é nada inventivo e oferece planos que já estamos acostumados, consegue usar bem silhuetas, sombras e até mesmo as cores das sirenes seja de ambulância ou de carros de polícia. Lógico que o pratica irritante do jumpscare está presente.
Para ser mais direto, no filme de Green falta o que mais sobra no clássico de 73: personalidade. Enquanto um dos longas marca com sequências inesquecíveis que amedrontaram por gerações, esse atual tendo um avanço tecnológico ao seu favor não aproveita. A maquiagem nas atrizes é boa e convincente, as atuações estão dentro dos padrões, mas não existe um momento específico que faça você temer olhar para elas em tela.
Em geral, “O Exorcista — O Devoto” é uma das maiores decepções de 2023, David Gordon Green encarregado por dirigir a recente trilogia do Halloween não decepciona no quesito ruindade e entrega exatamente tudo que boa parte das pessoas estavam esperando. Enquanto a marca “O Exorcista”, desfrute apenas do filme de 73 e interprete ele como uma obra fechada sem continuações, já que ele é um filme histórico e que de fato não precisa de continuações genéricas para continuar seu legado. Revistá-lo te fará bem.