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“O Sobrevivente” é mais produto de estúdio do que filme dirigido por Edgar Wright

“O Sobrevivente” é mais produto de estúdio do que filme dirigido por Edgar Wright

A releitura de Edgar Wright para “O Sobrevivente” chega num momento esquisito, a realidade já ultrapassou a distopia que Stephen King imaginou. A adaptação de 1987 parecia exagerada para um mundo ainda se acostumando com o espetáculo midiático. Já a versão de 2025 enfrenta o problema inverso, como chocar uma audiência que vê política, violência e intimidade virarem entretenimento todo dia? Wright tenta atualizar o pesadelo televisivo de King, mas tropeça numa ironia incômoda. Seu comentário social chega para quem já normalizou o absurdo, e a crítica acaba parecendo menos visionária, mais datada.

Tentando modernizar o material original, o cineasta dilui a densidade política da história. O filme flerta com insurgência, mas nunca deixa claro contra o quê exatamente estamos lutando. Qual sistema? Que instituição? A rebeldia vira enfeite, não programa. A trilha sonora traz citações de discursos históricos de resistência, mas funcionam como easter eggs irônicos, não como combustível para reflexão. Especialmente quando lembramos de obras que trataram o tema com seriedade. No fim, Wright mergulha numa sátira pós-moderna cheia de slogans sobre vigilância e manipulação, mas o resultado é mais barulho que crítica. O longa ecoa a ansiedade do nosso tempo sem conseguir articular nada sobre ela.

A história se passa num futuro onde governo, polícia e mídia estatal operam como uma máquina única de controle. Ben Richards, vivido por Glen Powell, é um trabalhador esmagado por sistemas tão difusos que resistir parece impossível. Wright sugere uma jornada de despertar político, mas nunca define pra onde essa revolta deveria apontar. Richards fica preso numa indignação vaga, quase anestesiante. E nós também. Desesperado para conseguir tratamento médico para a filha, ele entra no reality show que dá nome ao filme, um fenômeno cultural tão grande que não tem paralelo com nada que conhecemos hoje. Durante 30 dias, Richards precisa escapar de assassinos profissionais e de uma população inteira transformada em plateia vigilante. Enquanto isso, o produtor Dan Killian, interpretado por Josh Brolin, resume tudo numa conta fria: sobreviver uma semana colocaria a família dele entre o 1% privilegiado.

Para cada cena em que o longa funciona, especialmente nas sequências de ação que Wright coreografa bem e que Powell executa com preparo físico evidente, tem outra em que tudo parece se sabotar. Diretor e ator entendem o que precisam fazer para revitalizar a história, mas agem com tanto cuidado que acabam suavizando o que poderia torná-la especial. Dá pra sentir que os dois conhecem o potencial explosivo da obra, mas escolhem aparar as arestas para caber nos limites seguros do gênero. É como se calibrassem cada decisão para não incomodar ninguém de verdade.

Depois de se consolidar em Hollywood com “Top Gun: Maverick” e “Twisters”, Glen Powell finalmente protagoniza um blockbuster de estúdio. E é justamente aqui que as coisas desandam. Ben Richards parecia perfeito para o físico e presença de Powell, mas não para o tipo de atuação que ele faz melhor. Wright precisa de um protagonista duro, movido por raiva contida e silenciosa. Powell, que é puro carisma, raramente acerta o tom entre intensidade e vulnerabilidade. O resultado é um herói que deveria transpirar perigo, mas que muitas vezes parece apenas travado, com a expressividade reduzida a uma cara fechada.

Powell entrega o esperado nas cenas de ação. A fuga de toalha mostra o quanto ele treinou. Mas o filme desperdiça o que ele faz de melhor. Para um projeto que o coloca no centro absoluto, Wright ignora o timing cômico, o charme e a leveza que fizeram de Powell uma presença magnética antes. O roteiro de Wright e Bacall até dá algumas falas afiadas para ele, mas o diálogo carrega uma rigidez herdada da persona lacônica de Schwarzenegger no original. As palavras parecem feitas para outra voz, outro corpo, outro estilo. Quando saem da boca de Powell, soam forçadas, artificiais, longe da naturalidade que conhecemos.

Se isso é compreensível para um ator em ascensão, o mesmo não vale para Edgar Wright. Sua assinatura estilística, antes vibrante e inconfundível, sumiu. No lugar, temos um espetáculo de ação polido e genérico. Com um orçamento de nove dígitos marcando sua estreia nos blockbusters de verdade, Wright escolheu revisitar justamente o único projeto que, segundo ele disse em 2017, gostaria de refazer. Mas é estranho notar que qualquer traço da inventividade que o tornou relevante só aparece quando lembramos de Michael Cera em “Scott Pilgrim Contra o Mundo”, de 2010. Uma memória distante de um diretor que, aqui, parece mais interessado em atender expectativas corporativas do que em afirmar sua voz.

No fim, o longa-metragem funciona menos como filme de Edgar Wright e mais como produto desenhado para agradar executivos. A falta de visão estética fica meio escondida pelo elenco excelente. Colman Domingo, William H. Macy e Lee Pace entregam algumas de suas melhores performances aqui. O humor pontual também ajuda a manter o ritmo entre as cenas de ação. Mas, assim como na distopia vivida por Ben Richards, tem um limite para quanto o entretenimento consegue nos distrair de suas próprias falhas. O resultado é “bom o suficiente”, quando, com esse time, dava para ser realmente marcante.