Mais de uma década se passou desde que Fernando Coimbra nos impactou com “O Lobo Atrás da Porta”, um filme que, ao longo dos anos, se consolidou como referência no cinema nacional. Natural, então, que uma nova obra assinada por ele, especialmente ambientada novamente no Rio de Janeiro, viesse carregada de expectativas e comparações inevitáveis. Mas “Os Enforcados” não tem qualquer interesse em atender a expectativas prévias, e esse talvez seja o seu maior acerto. Longe de repetir fórmulas ou revisitar o que já deu certo, Coimbra escolhe o risco, desconstrói o previsível e entrega algo que escapa a rótulos fáceis. Para quem assiste esperando mais do mesmo, resta a frustração. Para quem se permite entrar no jogo estranho e inquietante que o filme propõe, a surpresa é das grandes.
Regina (Leandra Leal) e Valério (Irandhir Santos) são um casal apaixonado e hedonista que vive cercado de luxo em uma mansão no alto das colinas do Rio de Janeiro. Desde a morte do pai de Valério, o mais temido mafioso da cidade, os dois buscam uma forma desesperada de abandonar o submundo do crime. No entanto, o tio de Valério, Linduarte (Stepan Nercessian), insiste para que ele assuma o legado da família. Em uma noite tensa, durante uma tentativa de negociação, o casal acaba matando Linduarte por acidente. O que era para ser uma fuga se transforma em um mergulho irreversível em uma espiral de violência, levando-os exatamente ao destino do qual tentavam escapar.
Embora “Os Enforcados” se revele, em essência, um drama com tons marcadamente trágicos, como o próprio Fernando Coimbra define, uma tragicomédia onde o “trági” pesa mais, é surpreendente como o riso encontra espaço no meio do desconforto, muito por conta da boa dose de bom humor graças à personagem vivida por Irene Ravache, que entrega uma performance afiada e injeta uma leveza quase involuntária nos conflitos enfrentados por sua filha na trama, Regina. Há algo de cruelmente engraçado na maneira como a rotina, a família e a convivência cotidiana vão moldando o destino dessas personagens. O texto, preciso em sua ironia amarga, revela com inteligência como o mal pode surgir da normalidade, escorrendo silencioso por entre os gestos mais banais.
O diretor evidencia com precisão que o crime não é exclusividade das margens, mas também habita os salões silenciosos da elite, onde se disfarça com etiqueta, riqueza e aparências bem compostas. “Os Enforcados” faz essa denúncia sem didatismo, apenas deixando que as ações e contradições dos personagens revelem o que há de podre sob a superfície. A construção narrativa, guiada por uma cronologia enxuta e uma mise-en-scène calculada, sustenta o interesse do público do início ao fim, criando uma tensão constante que não depende de grandes reviravoltas, mas de um senso de realidade incômodo e sempre prestes a desabar.
Grande parte do impacto emocional do filme está nas atuações de Leandra Leal e Irandhir Santos, que entregam performances intensas e extremamente conectadas. Há uma cumplicidade cênica entre os dois que torna crível cada gesto, cada hesitação e cada explosão. Juntos, eles constroem um casal que é ao mesmo tempo íntimo e estrangeiro um ao outro, fazendo com que o público oscile entre empatia e julgamento. A trilha sonora, por sua vez, funciona como uma extensão emocional da personagem Regina. Algumas músicas parecem brotar diretamente de seus pensamentos mais íntimos, oferecendo ao espectador um vislumbre de sua dor, dúvida e desejo, sem jamais aliviar o peso de suas escolhas. É uma escolha sensível e potente que aprofunda a complexidade da personagem sem tentar redimi-la.
“Os Enforcados” não tenta explicar o caos, apenas o encena, como quem já perdeu a esperança de compreender ou resolver o que está apodrecido. A violência surge não como um choque, mas como continuidade de uma lógica social onde matar é só mais uma forma de negociar. Coimbra não está interessado em ensinar lições ou apresentar grandes teses políticas; seu filme respira o absurdo do cotidiano, rindo do horror com a mesma naturalidade com que se toma um café. Em vez de moralizar ou apontar culpados, ele prefere encarar o grotesco com um olhar quase indiferente, devolvendo ao cinema brasileiro uma liberdade criativa que há tempos parecia sufocada entre a urgência do engajamento e a estética do sofrimento.
Com “Os Enforcados”, Fernando Coimbra reafirma sua habilidade de provocar e desconcertar, entregando uma obra que desafia expectativas, mistura gêneros com precisão cirúrgica e expõe, com crueldade elegante, as contradições de uma sociedade viciada em poder, violência e aparência. Seu filme não busca redenção nem oferece saídas fáceis. Pelo contrário, deixa o espectador imerso em um desconforto profundo, quase cômico de tão trágico. Ao final, o que permanece é um riso nervoso e o eco de uma verdade incômoda: às vezes, tudo que resta é rir do próprio abismo.