Um filme de vampiros, “Pecadores”, de Ryan Coogler, talvez seja o projeto mais autoral do diretor desde sua estreia em “Fruitvale Station: A Última Parada” (2013). Com isso, ele mantém sua principal missão já conhecida: contar histórias negras, sejam elas reais ou fantasiosas, com o olhar voltado tanto para o impacto emocional quanto para o apelo popular. Coogler encara o gênero não como um desvio ou concessão, mas como um espaço legítimo de expressão, onde passado e presente conversam sem pedir licença.
A trama se desenrola em 1932, ao longo de um único dia e noite abafados na cidade de Clarksdale, no interior do Mississippi, um cenário marcado por lavouras, racismo entranhado, blues nascendo do pó e desejos mantidos sob silêncio. Michael B. Jordan assume um papel duplo como os irmãos gêmeos Smoke e Stack, conhecidos como Smokestack, que deixaram a cidade para enfrentar a guerra na Europa e acabaram imersos no submundo de Chicago, trabalhando para Al Capone e acumulando cicatrizes morais. Ex-golpistas, cafetões e assassinos, os dois agora retornam ao sul segregado, em busca de algo que não cabe mais no norte. Como diz um deles, com amargura: “Chicago é só o Mississippi disfarçado de arranha-céu”.
Os dois personagens vividos por Michael B. Jordan surgem em cena por meio de um recurso digital sofisticado, trocando um cigarro com naturalidade coreografada – um gesto simples que estabelece sua ligação imediata. O filme evita separá-los de maneira óbvia, preferindo sutilezas. Smoke usa um boné azul desbotado de estilo britânico; Stack, um chapéu de aba vermelha e dois dentes delineados em ouro. Fora isso, compartilham o mesmo cavanhaque espesso, o mesmo porte atlético e carisma contido, além de um sotaque suave e arrastado, como se cada palavra carregasse o gosto de hortelã deixada no bolso.
Em muitos sentidos, “Pecadores” é uma obra profundamente pessoal para Ryan Coogler, mergulhada em sua representação vibrante e caleidoscópica da experiência negra na América dos anos 1930. Com uma fotografia belíssima de Autumn Durald Arkapaw, o filme nos transporta tanto para a luz estourada das plantações quanto para a penumbra úmida e carregada das noites no sul rural. Esta é também a quinta colaboração entre Coogler e Michael B. Jordan, e a confiança mútua entre os dois se reflete na maneira como o diretor nos aproxima de Smoke e Stack, permitindo que suas ambições se tornem nossas, mesmo quando os métodos são questionáveis. Determinados a fazer da cantina um sucesso, os irmãos apostam tudo em um espetáculo que promete virar a noite de cabeça para baixo. Eles conseguem. Só não exatamente do jeito que imaginaram.
O longa apresenta diversos elementos positivos e pode agradar a muita gente. No entanto, a produção sofre por querer ser muitas coisas ao mesmo tempo, e acaba não sendo nada. O pior é que tudo o que nos é apresentado é bem executado separadamente, mas, quando se une, é perceptível que as narrativas não se alinham.
A introdução do filme nos apresenta um personagem todo ferido entrando em uma igreja. Logo em seguida, surgem flashes mostrando o que aconteceu com ele. Minutos depois, acompanhamos a jornada dos gêmeos montando um clube de blues. Todo esse caminho é interessante – parece que, de fato, estamos assistindo a um filme sobre esse tema. Logo depois, o longa-metragem começa a introduzir os vampiros, e o faz da maneira mais inesperada possível. A partir daí, tudo se reúne: blues, vampiros, lutas e cenas musicais que parecem ter sido tiradas de um clipe de Kendrick Lamar, com aquela pegada bem conceitual que o artista costuma oferecer.
Ainda assim, “Pecadores” se sustenta pela força de sua proposta. Ryan Coogler demonstra coragem ao embaralhar as convenções do cinema de vampiros e da representação racial nos Estados Unidos, criando um híbrido provocativo, ainda que imperfeito. Seu olhar continua potente, principalmente quando se trata de capturar a dor e o desejo de personagens que, historicamente, foram apagados ou caricaturados. A metáfora do vampiro – criatura condenada à noite, à sede e ao exílio – funciona aqui como um espelho para as marcas deixadas pela segregação, pelo retorno traumático da guerra e pela marginalização sistemática.
Apesar das falhas de coesão, “Pecadores” é um filme que merece ser discutido. Ao final, mais do que respostas, ele oferece sensações: o calor de um dia abafado, o som de um blues suado ecoando na madrugada, o brilho dourado de um dente reluzindo sob a lua. E talvez seja exatamente isso o que Coogler quer – não entregar um produto polido e perfeito, mas provocar, sugerir e deixar algo vibrando no peito de quem assiste.