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“Pedágio”, de Carolina Markowicz é um misto de sentimentos, mas eficaz como projeção

“Pedágio”, de Carolina Markowicz é um misto de sentimentos, mas eficaz como projeção

Séculos e décadas se passam e a humanidade continua buscando curas para uma doença inexistente. A ‘cura gay’ foi explorada de diferentes maneiras ao longo dos anos, métodos como violência, substâncias químicas, tratamentos de choques já foram utilizados, mas nunca trouxeram nenhuma eficácia, em alguns casos causou apenas mortes. Outra maneira de combater tal “doença” foi por meio da religião. Em “Pedágio”, novo filme de Carolina Markowicz aborda a crença divina para solucionar o comportamento sexual de um dos seus personagens, entretanto o filme de Markowicz vai além da ‘cura gay’.

Na trama, Suellen (Maeve Jinkings) é uma mulher que leva uma vida simples trabalhando como cobradora de um pedágio. Um dia, ela percebe que pode usar o emprego como uma forma de fazer uma renda extra — mas de maneira ilegal. Ela decide arriscar, mas acredita ter um motivo muito bom para tal: o dinheiro seria totalmente destinado a uma caríssima “cura gay” para seu filho Tiquinho (Kauan Alvarenga), ministrada por um pastor estrangeiro muito conhecido.

O roteiro assinado pela própria Carolina Markowicz desenvolve essa história de cura gay com uma certa seriedade. Em algum momento Suellen mostra um descontentamento com os vídeos que seu filho grava, sua amiga Telma (Aline Marta Maia) surge das profundezas do chão trazendo uma solução divina para resolver determinado problema. Entretanto, o que era para ser sério ganha pitadas de humor bastante inteligentes, porque não tem como levar a cura gay a sério.

Por tanto, em vez de desenvolver esse tema mais afundo, o roteiro de Markowicz escancara a hipocrisia religiosa e como em alguns casos isso pode acabar destruindo vidas e lares, e ela evidência tudo isso Suellen. A personagem é corrompida e acaba desviando seu caráter. Suellen tem um namorado envolvido com coisas erradas, ao descobrir que Arauto (Thomás Aquino) faz, ela o expulsa de casa dizendo não compactuar com as práticas dele, após ter a cabeça feita Telma com palavras da salvação, Suellen ver que o caminho mais fácil de curar Tiquinho e começa compactuar com os atos de Arauto.

No geral, nos é apresentado três histórias diferentes e todas estão ligadas, a trama do filme é amarrada divinamente bem nos levando para um único propósito. Em termos de fotografia a produção possui um tom acinzentado, mas acaba ganhando um contraste com rosa neon para definir o universo que tiquinho vive. Quando essas cores entram em tela, Tiquinho é ele próprio, sem precisar esconder sua personalidade.

Definitivamente, “Pedágio”, de Carolina Markowicz pode ser definido como um retrato da realidade. Mas não de uma realidade específica. Até mesmo quem nunca passou por algo similar, consegue se identificar com a projeção. Aqui temos uma história de amor, família, aceitação, crescimento, opressão e violência. Mas aqui a realidade é pautada, e a maioria das vezes não existe final feliz para a realidade e depois que tudo passa, a vida continua e isso fica nítido quando a tela fica preta, os créditos finais sobem, mas ainda sim continuamos o som ambiente da cena final de fundo.

O cinema nacional tem a capacidade de nos transportar para cada uma de suas narrativas, por mais que não nos sentimos identificados com elas, todas elas vão transmitir algo na gente em pequenos detalhes. “Pedágio” é isso, uma identificação com nossa cultura e Carolina Markowicz vem conseguindo fazer o espectador ter esse sentimento em cada longa-metragem que ela dirige. “Pedágio” é um dos grandes filmes nacionais de 2023 e ele merece todos os elogios possíveis.