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“Pobres Criaturas”, de Yorgos Lanthimos é o trabalho mais filosófico do cineasta

“Pobres Criaturas”, de Yorgos Lanthimos é o trabalho mais filosófico do cineasta

Se analisarmos friamente, provavelmente Yorgos Lanthimos é o cineasta que vem se desenvolvendo ainda mais a cada novo trabalho. O grego está no gosto do público, da crítica, dos festivais e principalmente das premiações. O diretor vem marcando presença em grandes festivais desde 2005, mas foi em 2009, com “Dogtooh”, que Lanthimos despertou a atenção de todos para si. Nesse ano não promete ser diferente, Yorgos nos agracia com o seu novo longa, “Pobres Criaturas”, que no qual posso adiantar que está entre um dos melhores que o diretor já dirigiu.

Em “Pobres Criaturas”, o cirurgião severamente desfigurado Godwin Baxter (Willem Dafoe) mantém sua única filha, Bella (Emma Stone), guardada com segurança dentro dos muros de sua imponente casa em Londres. Bella é uma adulta que se comporta como uma criança graças a medidas extremas tomadas pelos pais. Seu comportamento infantil, porém, não vem do isolamento, mas da experimentação. Ela é o resultado de Godwin implantar o cérebro de um bebê recém-nascido dentro do crânio do cadáver fresco de uma mulher que saltou para a morte do topo da Ponte de Londres.

Lanthimos cria um retrato da sexualidade feminina através da personagem de Emma Stone. Bella Baxter tem uma percepção pessoal da feminilidade que ignora os desejos predatórios alheio, mas tem clareza dos próprios. É com esse elemento que o cineasta decide adaptar o romance homônimo de Alasdair Gray. Aqui nos deparamos entre a obscenidade de um adulto maduro e a infantilidade de alguém de pouca idade, tudo isso vivido por um só personagem. Tudo isso é feito com um humor bem sarcástico.

Exemplificando, em um momento Bella está sentada na mesa de jantar, com as pernas abertas com um olhar travesso, Bella afirma ter descoberto uma maneira de ser feliz sempre que quiser. Ela está se referindo, é claro aos prazeres da masturbação. Bella está disposta ir mais além e para isso ela precisa se rebelar e conta com Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo), um ponto principal para a protagonista se aprofundar ainda mais no seu conhecimento sexual.

Mas calma, “Coisas Estranhas” está longe de se tratar apenas sobre aventuras sexuais que retratam uma descoberta dos prazeres feminino através do corpo da mulher. Apesar disso tudo, o filme é educativo e acredito que em um ponto de vista feminino, a produção seja libertadora e respeitadora. Dividido por capítulos, fica evidente que Bella vai amadurecendo a cada um deles, seja fisicamente e mentalmente. Se no começo da produção Bella andava de maneira bem robótica, mais adiante ela está andando como um adulto normal.

Isso tudo cai muito na conta de Emma Stone. Stone nos apresenta aqui um dos seus melhores trabalhos como atriz, se não o melhor. Emma vive Bella intensamente e não poupa em se mostrar diante das câmeras. Todas as cenas ela está bem dominante, até mesmo quando sua personagem é dominada. O restante do elenco também está muito bem, quando penso que Willem Defoe não pode mais surpreender, ele simplesmente mostra que seu talento sempre será capaz de causar surpresas.

“Pobres Criaturas” pode ser considerado o trabalho mais maduro de Lanthimos. Filmado pelo o diretor de fotografia de “A Favorita”, Robbie Ryan, utilizando a mesma lente de olho de peixe em algumas cenas e personalizado em 35mm. O filme é um primor técnico, repleto de ousadia com cores vivas para retratar o universo de Bella. O design de produção é algo bem particular, cada detalhe parece ser único, das ruas de Lisboa até a decoração de um navio cruzeiro.

Particularmente falando, não sou o maior fã das histórias contadas por de Yorgos Lanthimos, “O Lagosta” (2015) continua sendo a produção do cineasta que mais me agrada, entretanto, esse seu atual trabalho conseguiu me fisgar, diferente de “A Favorita” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado”.

Em última analise, “Pobres Criaturas” pode ser considerado um filme atemporal, talvez ele cause uma sensação de estranheza, mas não entrega desconforto para quem assiste, mas sim reflexões. Lanthimos mesmo não me agradando, reconheço que é um diretor necessário e que está sempre entregando trabalhos diferentes dos anteriores.