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Há algo perversamente elegante na ideia de transformar uma previsão do tempo em matéria de suspense. É essa a aposta de “Pressão”, novo filme do diretor australiano Anthony Maras, baseado na peça de David Haig, de 2014. Em vez de trincheiras, tanques ou discursos grandiosos, o verdadeiro campo de batalha é uma sala fechada, cheia de mapas e gráficos, onde homens exaustos tentam prever o imprevisível, o clima.
A ação se passa nas 72 horas que antecedem o Dia D, em junho de 1944. O Capitão de Grupo James Stagg, meteorologista britânico vivido por Andrew Scott, é convocado para orientar o General Dwight Eisenhower (Brendan Fraser) sobre as condições climáticas para o maior desembarque militar da história. A escolha do protagonista é interessante. Stagg não empunha armas nem lidera tropas, mas carrega o peso de uma decisão que pode salvar ou sacrificar milhares de vidas.
Scott entrega uma atuação de contenção. O roteiro não lhe dá flashbacks, cenas de infância ou mesmo uma explicação detalhada sobre quem é aquele homem. Sabemos apenas que deixou a esposa grávida para cumprir a missão. É pouco, mas Scott faz esse pouco render. Sua atuação constrói um homem inteiro a partir de olhares, pausas e uma tensão que dispensa grandes discursos.
Do outro lado está Irving Krick (Chris Messina), o meteorologista americano cuja confiança se aproxima da arrogância. Krick aposta que o dia 5 de junho terá céu limpo, baseando-se em padrões climáticos de anos anteriores. Stagg discorda, e a divergência técnica se transforma no principal conflito dramático do filme. Não há vilão nem mocinho. Existem apenas duas leituras diferentes de dados incertos e a angústia de saber que uma delas pode custar a vida de milhares de soldados.
Brendan Fraser, em sua fase de reencontro com o público após o sucesso de “A Baleia”, interpreta um Eisenhower à beira do colapso, alguém que precisa parecer inabalável diante de seus generais enquanto se afunda em dúvidas. É um papel mais expansivo que o de Scott e funciona como contraponto físico e emocional à contenção do meteorologista britânico.
Kerry Condon, como a secretária Kay Summersby, é o principal respiro de humanidade em um ambiente dominado por homens de terno tomando decisões de vida ou morte. Ela não tem muito espaço para se desenvolver, mas sua presença sugere um filme paralelo, talvez mais interessante, sobre como era estar perto do poder sem nunca deter poder algum.
Tecnicamente, Maras é mais eficiente do que ousado. As cenas na sala de guerra seguem uma cartilha conhecida, com montagens de mapas, música tensa e rostos suados sob luz amarelada. O filme ganha fôlego quando escapa das quatro paredes, principalmente na reconstituição do desastroso Exercise Tiger, treinamento que terminou em uma tragédia real, e depois no próprio desembarque na Normandia. Nesses momentos, a câmera de Maras se solta e o filme encontra um cinema mais físico e direto.
O problema é que “Pressão” nunca arrisca ir além do que promete. É um filme correto, bem interpretado e tecnicamente competente, mas também previsível, preso a uma estrutura de drama de guerra que já vimos dezenas de vezes, ainda que aqui apareça sob uma perspectiva diferente. Falta ao filme a curiosidade de investigar mais a fundo o que significa tomar decisões cruciais sem qualquer certeza, tema que o próprio roteiro levanta, mas depois abandona em favor de um desfecho emocionalmente seguro.
Ainda assim, há valor em um filme que escolhe celebrar os heróis anônimos da guerra, aqueles que nunca dispararam um tiro, mas cujos cálculos e leituras de barômetro ajudaram a decidir o destino de uma invasão. “Pressão” não reinventa o gênero, mas cumpre o que se propõe. Mostra que, às vezes, a batalha mais decisiva acontece em silêncio, entre números, dúvidas e a coragem de assumir uma previsão.