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“Rivais”, o matchpoint cinematográfico de Luca Guadagnino

“Rivais”, o matchpoint cinematográfico de Luca Guadagnino

Muito se fala que não existe mais criatividade no cinema, principalmente vindo de Hollywood, que estamos vivendo numa era de reboot e remake, mas esse argumento só sai apenas da boca de quem se aprisiona a um determinado estilo de filme. Luca Guadagnino é a prova viva que a criatividade não morreu e nunca vai deixar de morrer, todo novo trabalho do diretor é um frescor cinematográfico e “Rivais”, seu novo filme mostra que o cineasta italiano está construindo uma filmografia histórica.

Art Donaldson (Mike Faist) é tenista bem sucedido. Ele venceu todos os Grand Slams, mas o Aberto dos Estados Unidos está faltando em seu currículo. Seu treinador? Ninguém menos que sua esposa, Tashi Duncan (Zendaya), que, ao mesmo tempo, estava a caminho de ser uma das maiores jogadoras de todos os tempos. Aos 31 anos, e praticando o esporte a vida toda, Art está visivelmente esgotado e vem perdendo partidas na primeira rodada de torneios. Tashi decide inscrevê-lo no ‘Desafio’ em New Rochelle, um torneio cujo vencedor tem uma chance para se classificar para o Aberto dos Estados Unidos. Em teoria, participar dessa competição está abaixo para um jogador da estatura de Art, um dos jogadores mais bem classificados do mundo, mas nesse torneio ele terá a surpresa de reencontrar seu antigo amigo Patrick Zweig (Josh O’Connor), que durante algum tempo se tornou uma pedra no sapato deles por conta de alguns acontecimentos que aconteceram no passado dos três.

O roteiro escrito originalmente por Justin Kuritzkes, “Rivais” aparenta ser basicamente um filme de tênis e, bem, de certa forma é. Em determinado momento Tashi comenta: “Estamos sempre falando sobre tênis”. O esporte está no centro das atenções em algumas ocasiões, mas apesar dos esforços de todos os envolvidos, os fundamentos esportivos presentes neste filme não são nem de longe tão importantes quanto o triângulo amoroso de uma década entre Tashi e os ex-melhores amigos, Patrick Zweig e Art Donaldson. Dito isso, não é um filme apenas sobre um esporte ou um triangulo amoroso, mas sim um filme de Guadagnino, que teve a capacidade de unir esses dois elementos e criar uma história envolvente.

O longa-metragem não constrói um caminho para Art e Patrick se enfrentarem na final do ‘Desafio’, quando menos esperamos, com poucos minutos de produção já estamos diante dos dois se enfrentando na final, essa partida acontece durante todo o filme e com isso vai rolando flashbacks com a perspectiva de cada membro do triangulo. Primeiro Zweig, segundo Art e terceiro, Tashi. A curiosidade aqui fica referente a situação que cada um está vivendo na partida. Quando Zweig se sai bem no decorrer do jogo, a história dele é contada e mostra como foi o relacionamento dele com Tashi e como Art estava por baixo naquele momento, e assim as coisas vão se invertendo.

Patrick e Art sempre foram amigos, viviam colados e formavam uma grande dupla dentro do tênis até o momento que ambos se interessaram pela mesma garota. Antes da relação começar, Tashi deixou um aleta, “sou conhecida como destruidora de lares”, evidente quando dois amigos estão apaixonados pela mesma mulher, algo bom não vai acontecer.

Tashi está, e tem estado, no controle da situação. E, na maior parte do tempo, ano após ano, ela continuará no controle. Com Art e Patrick reagindo a cada um de seus caprichos. Um exemplo vivo disso é quando os três tem o primeiro contato físico mais íntimo, na cena que o trio está se envolvendo, ela parece um maestro guiando uma orquestra até conseguir o que deseja, fazer Art e Patrick se beijarem. Provavelmente essa cena seja a falada e desperte bastante atenção do grupo público, no entanto, Guadagnino não resume seu filme em uma cena mais quente, ele vai além, ele consegue desenvolver um romance entre três pessoas.

Para toda essa arquitetura funcionar, ele conta com Zendaya, que tem uma atuação imponente, que faz sua personagem dominar seus amantes e fazer tudo que ela deseja. Provavelmente esse é o primeiro filme de Zendaya que a expõe de um jeito que não estávamos acostumados a ver. Aqui ela está bem madura e finalmente conseguimos desligar ela de trabalhos como ‘Euphoria’, que cativou muita gente com seu nível de atuação. Essa moça segue um caminho para ser uma das maiores atrizes da sua geração e o mais impressionante que ela não precisa de blockbusters para tal feito.

Guadagnino usa uma trilha sonora de techno dance do final dos anos 90 de Trent Reznor e Atticus Ross para aumentar a tensão nas partidas de tênis do filme. É uma escolha tão corajosa que você pode não deixar de sorrir ao ver como isso funciona euforicamente no ato final do filme. Isso se torna um triunfo em tanto.

Em última análise, “Rivais” é um grande marco para o cinema em 2024, não é inovador, mas o filme consegue prender nossa atenção com cada elemento, o seu final nos deixa em êxtase. Não importa quem venceu a partida, na conclusão, todos nós vencemos em saber que Luca Guadagnino é capaz de entregar obras impecáveis e essa é mais uma dela.