Podemos considerar Alex Garland como um cineasta promissor ainda mais dentro do gênero da ficção científica, ‘Aniquilação’ (2018) e ‘Ex_Machina: Instinto Artificial’ (2015) caíram nas graças de quem é apreciador do gênero, além disso em 2022 o diretor nos entregou ‘Men: Faces do Medo’, um horror que dividiu opiniões, agora o ele dirige “Guerra Civil”, que infelizmente entre todos os seus filmes dirigidos é o único que pode ir além da ficção.
Num futuro próximo, a América como a conhecemos entrou em colapso. A Califórnia e o Texas separaram-se e formaram as Forças Ocidentais, uma aliança militar destinada a desafiar o domínio do Presidente na Costa Leste. E desde o início do conflito, a fotógrafa Lee (Kirsten Dunst) e o jornalista Joel (Wagner Moura) se inseriram na linha de frente, capturando as histórias de civis e soldados e divulgando as atualizações da guerra para todos os cantos do mundo.
É capaz de separarmos o filme de Garland em algumas vertentes e uma delas fez com que o filme fosse uma surpresa positiva, particularmente falando. O fotojornalismo está entranhado na produção, e isso faz com que o longa desperte discursões/reflexões sobre a profissão em pessoas que não estão tão habituadas com área. O fotógrafo que se dedica em cobrir pautas em ambientes hostis presencia muitos dramas que parte da sociedade nunca vai ter oportunidade, no filme isso é vivido e interpretado divinamente bem pela personagem de Kirsten Dunst.
Lee Smith é o retrato de uma fotografa que está exausta, de que não aguenta mais presenciar e viver aquela rotina, seus traumas estão acabando com ela fisicamente e mentalmente. Isso fica nítido em seu olhar vazio graças a uma interpretação genuína de Dunst. Em contra partida, Existe Joel que está numa missão de entrevistar o presidente, o personagem do Wagner Moura é alguém que curte e necessita da adrenalina que a profissão o propõe. Porém, o maior reverso disso tudo é Jessie Cullen (Cailee Spaeny), uma fotografa aspirante que tem Lee como inspiração e quer ser como ela. Se uma está cansada, a outra está saboreando as primeiras sensações que o fotojornalismo proporciona, até o sentimento de medo.
Quase todos os acontecimentos do filme giram em torno da tal entrevista com o presidente americano, uma das características de “Guerra Civil” é se tornar um road movie pós-apocalíptico que nos causa tremenda aflição sabendo que qualquer nação pode sucumbir e viver tal realidade. Nos deparamos com os quatro integrantes da equipe jornalística, Lee, Joel, Jessie e Sammy (Stephen McKinley) atravessando o país de carro e registrando tudo que estão diante dos seus olhos e principalmente de suas lentes. Durante grande parte da produção, esses personagens lutam com seu papel de observadores imparciais.
Não que isso seja ruim, mas o longa tem diversos elementos clichês de todos filmes pós-apocalíptico, prédios destruídos, explosões de bombas, rastro de fumaças, carros abandonados e entre outros elementos. O diretor de fotografia Rob Hardy agrega divinamente a direção de Garland e consegue criar elementos que conseguem simbolizar o caos vivido em cenas, seja nas cores ou takes. Outro quesito importante é o som dos disparos das armas bem captados, o som ambiente que incomoda o espectador.
Um dos pontos fortes de “Guerra Civil” é não se associar a um pensamento ideológico em termos de política, para ser sincero, o longa-metragem nem se aprofunda no motivo que ocasionou a guerra. Garland nos oferece um exercício de reflexão sobre governantes que discursam sobre essa vontade excessiva de estar no poder e querer continuar eternamente por lá. Em um ano eleitoral americano, sem sombras de duvidas posso afirmar que “Guerra Civil” é um filme bastante corajoso que nos deixa atento para mantê-la apenas como ficção.