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“Springsteen: Salve-me do Desconhecido”, dirigido por Scott Cooper, constrói um retrato introspectivo de um artista em crise

“Springsteen: Salve-me do Desconhecido”, dirigido por Scott Cooper, constrói um retrato introspectivo de um artista em crise

Bruce Springsteen dispensa apresentações. Sua importância para o rock e para a cultura americana é incontestável, e sua discografia inclui alguns dos álbuns mais relevantes já produzidos. “Springsteen: Salve-me do Desconhecido”, dirigido por Scott Cooper, acompanha o processo de criação de uma dessas obras, mas não se resume a isso.

O filme interessa justamente por ir além da música. Cooper entende que para compreender o artista é preciso olhar para o homem, e constrói seu retrato em torno da relação difícil entre Springsteen e seu pai. É dessa tensão familiar, tanto quanto do talento, que nasce a obra. O diretor filma os bastidores da criação sem perder de vista o drama pessoal que alimenta cada canção. É nesse equilíbrio entre o público e o privado que o filme encontra sua razão de ser.

Cooper inicia sua narrativa em 1957, quando Adele Springsteen (Gaby Hoffman) leva o pequeno Bruce (Matthew Anthony Pellicano) a um bar de esquina para buscar o pai, Douglas (Stephen Graham), cuja relação com o álcool já começa a corroer os laços familiares. O olhar assustado do menino, ao entregar a mensagem da mãe, sintetiza em segundos o peso que moldará toda a sua vida. Anos depois, em 1981, o filme retorna a um Bruce adulto (Jeremy Allen White) no auge da fama, encerrando uma apresentação de “Born to Run” em Cincinnati. Exausto, ele recebe de Landau (Jeremy Strong) a notícia de uma nova casa em Colts Neck, Nova Jersey, um refúgio que também se tornará o berço de sua próxima jornada criativa.

Baseado no livro “Deliver Me From Nowhere” (2023), de Warren Zanes, “Salve-me do Desconhecido” não busca compor uma biografia tradicional de Bruce. O diretor evita o percurso convencional da ascensão artística, preferindo focar em um recorte de vulnerabilidade e transição. Não há aqui a gênese do ídolo, mas o homem em conflito com o próprio eco da fama. O filme se concentra no período posterior à longa turnê de The River, quando Bruce Springsteen se vê diante de um impasse, esgotado criativamente e emocionalmente, tentando compreender se ainda há verdade em sua voz.

É justamente nessa abordagem que o filme encontra sua singularidade, afastando-se da estrutura típica das cinebiografias musicais. Scott Cooper constrói uma obra introspectiva, quase antimusical, em que as canções surgem menos como espetáculo e mais como confissão. Não há clímax de palco nem catarse coletiva, apenas fragmentos de criação, ensaios e silêncios que revelam um artista tentando se reconciliar com suas próprias sombras. Com Jeremy Allen White interpretando um Springsteen dilacerado, o filme desmonta o mito para revelar o homem: alguém marcado pela culpa, pelo cansaço e por uma busca de sentido.

Ainda que repleto de momentos inspirados, “Springsteen: Salve-me do Desconhecido” não escapa de algumas escolhas que limitam seu alcance. Cooper opta por um estilo visual que, ao recorrer a flashbacks em preto e branco, acaba evocando mais nostalgia do que inovação, enquanto o excesso de diálogos explicativos dilui parte da força do roteiro, especialmente nas cenas envolvendo Landau. Há também a subtrama de Faye (Odessa Young), uma figura composta a partir de várias mulheres da vida de Bruce, que, embora fascinante, revela mais sobre si do que sobre o próprio protagonista. Ainda assim, a intensidade das atuações e a honestidade com que o processo criativo é retratado garantem ao filme um desfecho digno, mesmo que imperfeito.

O desfecho de “Salve-me do Desconhecido” carece de impacto, encerrando-se de forma mais morna do que a trajetória parecia prometer. As legendas finais acabam assumindo o papel de amarrar o que a narrativa poderia ter resolvido em cena, enfraquecendo a força da conclusão. No entanto, há um instante redentor no último ato, o reencontro entre pai e filho, que transcende qualquer limitação estrutural. É uma troca silenciosa, carregada de dor e ternura, que resume com precisão o coração do filme. Um momento tão forte que quase faria sentido se tudo terminasse ali.

De modo geral, “Springsteen: Salve-me do Desconhecido” é um longa de carga dramática intensa, que encontra força justamente em sua vulnerabilidade. Embora se apresente como uma cinebiografia, o filme se distancia das convenções do gênero para oferecer algo mais íntimo e universal: uma história sobre solidão, medo e autodescoberta, sentimentos que muitos podem reconhecer nas angústias de Bruce durante o processo de criação de Nebraska. Pode não ser a obra mais completa de Scott Cooper, mas é certamente uma das mais humanas, ao despir a figura de um ícone e revelar, por trás do mito, o homem em busca de si mesmo.