Há algo revelador na forma como “Super Mario Galaxy: O Filme”, dirigido por Michael Jelenic e Aaron Horvath, chega às telas. Em vez de expandir narrativamente o universo que o originou, o longa se apresenta como um produto moldado para a lógica de consumo fragmentado atual. Impulsionado pelo sucesso da franquia e pela força da marca Mario, o filme parece menos interessado em contar uma história e mais em acumular estímulos. É uma sequência contínua de momentos pensados para capturar atenção imediata. Entre cores vibrantes, ritmo acelerado e referências autoconscientes, sustenta-se como espetáculo, mas deixa a impressão de que, por trás da escala cósmica, há pouco além de uma experiência calculada para funcionar em recortes, e não como uma obra coesa.
É nesse ponto que reside sua principal frustração. Não se trata de um filme desastroso. Há competência técnica, acabamento e domínio claro de ritmo e estética. Ainda assim, tudo funciona como uma engrenagem bem ajustada que não sai do lugar. Em “Super Mario Galaxy: O Filme”, a narrativa parece sempre prestes a começar, sem nunca se desenvolver de fato. Personagens atravessam a trama sem densidade, conflitos surgem e desaparecem sem consequência, e o que deveria ser construção emocional se reduz a acenos ao público. O filme entrega exatamente o que promete, ícones reconhecíveis, referências em sequência e momentos feitos para gerar identificação imediata, mas, ao fazer isso de forma automática, esvazia qualquer sensação de progressão ou impacto. Em certo momento, o que está em cena deixa de se sustentar como cinema e passa a funcionar como uma vitrine de marca.
A continuação leva Mario, dublado por Chris Pratt, e Luigi, por Charlie Day, a uma aventura no espaço, onde reencontram a Princesa Peach, com voz de Anya Taylor-Joy, e Toad, vivido por Keegan-Michael Key. No caminho, encontram Yoshi, interpretado por Donald Glover, e Rosalina, por Brie Larson, além de enfrentarem novamente Bowser, dublado por Jack Black, aqui em uma versão reduzida e curiosamente contida. Enquanto isso, Bowser Jr., com voz de Benny Safdie, assume o centro da ação ao tentar resgatar o pai, recorrendo ao sequestro de outra princesa e ao uso de um poder estelar capaz de desequilibrar a situação. Esse é, em linhas gerais, o eixo da história, ainda que chamá-lo de trama seja generoso. No fim, trata-se de um fio condutor mínimo que serve apenas para conectar grandes sequências de ação.
A experiência pode ser resumida como um encadeamento mecânico de cenas. Grandes blocos de ação são ligados por transições breves, como se cada momento existisse apenas para levar ao próximo. Perseguições levam a resgates, que levam a destruições, seguidas por fugas que reorganizam o cenário para um novo confronto. Nada evolui de fato, apenas se rearranja. O objetivo permanece o mesmo, enquanto os cenários se tornam mais extravagantes. Bowser Jr. deseja algo, Mario e Luigi tentam impedir, surge um novo ambiente, uma nova ameaça, e o ciclo recomeça. O resultado é um movimento contínuo que pouco se preocupa em construir significado, funcionando mais como vitrine de espetáculo do que como narrativa em desenvolvimento.
Isso se torna ainda mais frustrante quando se observa que o próprio cinema comercial recente já encontrou caminhos mais interessantes para trabalhar propriedades semelhantes. Phil Lord e Christopher Miller transformaram “Uma Aventura LEGO” em algo que ia além da extensão de marca, explorando criatividade e padronização com inteligência. Greta Gerwig fez de “Barbie” uma reflexão sobre identidade e construção social a partir de um ícone comercial. Em ambos os casos, havia um esforço claro de tensionar o material de origem e extrair algo além do óbvio. “Super Mario Galaxy: O Filme”, por outro lado, parece confortável em apenas reproduzir sua própria imagem, sem questionar o que ela pode significar.
Em vez de propor uma releitura ou aprofundamento, o filme se apoia na versão mais básica de sua lógica: a história de resgatar uma princesa, agora ampliada para proporções cósmicas e revestida de elementos familiares. Não há reinvenção, apenas a manutenção de uma fórmula que se sustenta pela repetição. A cada nova camada de personagens e referências, o longa tenta disfarçar a fragilidade de sua estrutura, apostando que velocidade e excesso possam ser confundidos com novidade. Nem o humor se destaca, preso a soluções previsíveis, com um direcionamento voltado quase exclusivamente ao público infantil, sem interesse em dialogar com algo além do imediato.
Ainda assim, há méritos. O filme não se estende além do necessário, com pouco mais de 95 minutos, e entrega um espetáculo visual consistente. A animação é vibrante, polida e, em vários momentos, impressionante, com cenários que sugerem ambição e cuidado na transição entre mundos. No entanto, basta a trilha sonora subir e uma nova sequência de ação começar para que o padrão se repita. Tudo avança em alta velocidade, mas sem acúmulo real. É o tipo de experiência em que se pode desviar o olhar por alguns minutos sem perder nada essencial, porque nada se constrói. Por trás do brilho técnico e da constante introdução de novos elementos, “Super Mario Galaxy: O Filme” permanece estático, incapaz de transformar movimento em desenvolvimento.
No fim, fica a sensação de um ciclo que nunca se completa, uma sucessão de objetivos reciclados e explosões visuais que parecem existir apenas para cumprir um modelo. Falta propósito, falta construção, falta a tentativa de tornar essa mitologia algo vivo. O que se vê é um conjunto de elementos reconhecíveis organizados para gerar resposta imediata, quase como uma colagem de referências que privilegia o reconhecimento em vez do significado. O público mais jovem pode se deixar levar por esse fluxo constante de estímulos, mas isso não substitui o essencial. Personagens precisam evoluir, conflitos precisam deixar marcas e a narrativa precisa ir além do movimento. “Super Mario Galaxy: O Filme” impressiona na superfície, mas carece de força interna. É uma peça de franquia calculada, que se apresenta como aventura, mas funciona, no fim, como extensão de si mesma.