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“Supergirl”, de Craig Gillespie, apresenta Milly Alcock como uma heroína imperfeita em produção fragilizada

“Supergirl”, de Craig Gillespie, apresenta Milly Alcock como uma heroína imperfeita em produção fragilizada

Desde sua reformulação nos quadrinhos contemporâneos, Kara Zor-El (Milly Alcock) deixou de ser apenas uma contraparte feminina do Superman (David Corenswet) para se tornar uma personagem marcada pelo deslocamento, pela perda e por uma inquietação difícil de conciliar com o ideal heroico tradicional. Em “Supergirl”, Craig Gillespie abraça justamente essa faceta mais turbulenta da heroína. Em vez de reproduzir a nobreza quase inabalável que define seu célebre primo, o diretor aposta em uma protagonista fragmentada, cuja relação com o heroísmo nasce menos do dever e mais da tentativa de encontrar algum sentido após sucessivas rupturas. O resultado é um filme que procura distinguir sua singularidade dentro do novo universo da DC ao apresentar uma Supergirl menos solar, mais imprevisível e profundamente marcada por suas cicatrizes.

A trama ganha forma quando Kara cruza o caminho de Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley), uma jovem determinada a atravessar a galáxia em busca de vingança contra Krem (Matthias Schoenaerts), o criminoso responsável pelo assassinato de seu pai. Relutante em assumir qualquer compromisso que a obrigue a olhar além de si mesma, a heroína acaba embarcando na jornada da garota e transformando uma missão pessoal de acerto de contas em uma extensa odisseia espacial. É nesse percurso que Craig Gillespie encontra o motor dramático do filme, não apenas na perseguição ao antagonista, mas no choque entre duas personagens consumidas pela perda que, à sua maneira, tentam dar sentido ao próprio sofrimento.

Embora o roteiro insista em revisitar o passado de Kara para aprofundar suas motivações, essas incursões acabam revelando mais sobre as limitações da narrativa do que sobre a personagem em si. Ao interromper constantemente a jornada principal para retornar aos traumas ligados à destruição de Krypton, o filme recorre a uma exposição excessivamente direta, reiterando informações que já estavam implícitas na performance de Milly Alcock e nas interações da personagem ao longo da trama. Em vez de enriquecer o drama, essas passagens enfraquecem o ritmo da aventura e retiram urgência da narrativa presente, transformando momentos potencialmente tocantes em explicações redundantes.

Se há um aspecto em que “Supergirl” demonstra atenção particularmente cuidadosa, é na construção visual de seu universo interestelar. Craig Gillespie e sua equipe optam, em diversos momentos, por privilegiar efeitos práticos, maquiagem elaborada e figurinos detalhados na criação das diferentes espécies alienígenas que povoam a jornada de Kara. Essa escolha confere textura e personalidade ao longa. Em vez de depender exclusivamente de criaturas geradas digitalmente, o filme abraça uma estética mais tátil, na qual é possível perceber o trabalho físico empregado na caracterização dos personagens. O resultado pode não exibir o acabamento do CGI contemporâneo, mas oferece algo igualmente valioso: uma sensação de materialidade que aproxima “Supergirl” das grandes aventuras espaciais clássicas e adiciona um charme raro nas superproduções atuais.

A introdução de Lobo, vivido por Jason Momoa, injeta uma energia distinta à narrativa. Figura cultuada nos quadrinhos por seu temperamento caótico e personalidade extravagante, o mercenário surge como um contraponto direto à introspecção de Kara e à determinação de Ruthye. Momoa parece compreender perfeitamente o apelo do personagem, entregando uma interpretação carregada de carisma e irreverência. Ainda assim, o roteiro nem sempre encontra uma função dramática igualmente sólida para sua presença. Embora suas aparições acrescentem dinamismo e aliviem momentaneamente a seriedade da trama, Lobo soa muitas vezes mais como uma atração especial dentro do novo universo da DC do que como uma peça indispensável para o desenvolvimento da história. Mesmo assim, o contraste entre sua postura anárquica e a obstinação quase solene de Ruthye produz alguns dos momentos mais divertidos do filme.

“Supergirl” demonstra interesse em discutir pertencimento e senso de comunidade por meio de suas protagonistas, mas alcança seus melhores resultados quando evita discursos explícitos e confia na evolução de Kara. O roteiro de Ana Nogueira acerta menos quando tenta verbalizar suas ideias e mais quando permite que elas emerjam naturalmente da relação entre as duas personagens. O aspecto mais fascinante dessa encarnação da heroína não reside em reafirmar sua força física, algo inerente à personagem, mas em explorar sua resistência e sua dificuldade em estabelecer vínculos. Ao longo da jornada, Kara gradualmente abandona a postura de distanciamento que cultivou como mecanismo de defesa e passa a compreender que fazer parte de uma comunidade não exige a abnegação absoluta que parece definir Superman. O filme sugere, de maneira mais interessante do que em suas declarações mais diretas, que o heroísmo pode assumir formas distintas e que a conexão humana talvez seja tão importante quanto salvar o mundo.

Visualmente, “Supergirl” oscila entre momentos de genuína inspiração e outros excessivamente dependentes de referências facilmente identificáveis. A trilha sonora procura imprimir personalidade à aventura, recorrendo a canções populares e arranjos contemporâneos para acentuar determinadas passagens ou sequências de ação. Em alguns momentos, essa estratégia funciona ao reforçar o espírito irreverente da protagonista; em outros, a sensação é de familiaridade excessiva. A direção de Gillespie demonstra clara afinidade com a estética das óperas espaciais e dos westerns cósmicos, mas raramente consegue transcender essas influências para estabelecer uma assinatura visual verdadeiramente própria. Muitos ambientes, figurinos e composições remetem imediatamente a outras obras do gênero, fazendo com que parte da jornada de Kara pareça habitar um universo esteticamente derivativo. Para um filme encarregado de apresentar uma nova protagonista ao recém-inaugurado universo da DC, a ausência de uma assinatura visual mais marcante acaba se tornando uma oportunidade parcialmente desperdiçada.

Apesar dos tropeços narrativos e de uma estética visual nem sempre consistente, “Supergirl” encontra força suficiente em sua protagonista para justificar sua existência dentro do novo universo da DC. Grande parte desse mérito pertence a Milly Alcock, que confere à personagem uma combinação de vulnerabilidade, sarcasmo e inquietação que sustenta o filme mesmo quando o roteiro titubeia. Sua química com Eve Ridley ancora os momentos mais sinceros do longa e impede que a aventura se torne apenas mais uma história de origem convencional. Ao lado da presença carismática de Krypto e das ocasionais interações com Superman, o filme consegue construir uma heroína distinta de seu primo sem negar a ligação entre ambos. Ainda há espaço para refinamento nas próximas aparições da personagem, mas Craig Gillespie entrega uma introdução promissora para Kara Zor-El, enquanto Alcock deixa claro que possui presença suficiente para carregar futuras histórias nas costas.