Na era pós-Marvel e pós-Snyder, James Gunn tenta reinventar o mito do Superman com uma proposta ousada: marcar um novo ponto de partida para o universo cinematográfico da DC sob sua liderança. Como co-CEO da DC Studios e roteirista-diretor deste novo capítulo, Gunn parece empenhado em apagar as pegadas do passado, tanto as próprias quanto as do estúdio, para erguer algo que soe fresco e distinto. Mas essa tentativa de ruptura se revela, desde os primeiros minutos, mais uma questão de intenção do que de execução. Ao evitar a clássica história de origem e mergulhar diretamente na ação e nos dilemas modernos do herói, o filme sacrifica o desenvolvimento emocional e simbólico que sempre sustentou o Homem de Aço como ícone. A ambição de ser diferente se impõe com tanta força que deixa pouco espaço para a construção de algo verdadeiramente autêntico, e o resultado é um Superman que quer soar monumental, mas raramente consegue ser memorável.
O longa de James Gunn se inicia já no meio da ação: Superman (David Corenswet) está em processo de recuperação após ser derrotado pela primeira vez, algo que nos é revelado por meio de um texto introdutório. O responsável pela queda não é outro senão o enigmático Ultraman, e o herói se refugia em sua tradicional Fortaleza da Solidão, onde conta com a companhia e os cuidados de Krypto, seu supecão. Mas a narrativa rapidamente revela que a surra sofrida por Superman tem como mentor real Lex Luthor (Nicholas Hoult), aqui interpretado de maneira escancaradamente exagerada, beirando o histriônico. Ele lidera uma equipe de especialistas em inteligência artificial que, após anos analisando os movimentos de combate do herói, desenvolveram técnicas de previsão capazes de superá-lo em campo.
Paralelamente, o filme apresenta um conflito político internacional envolvendo a fictícia Boravia, uma nação opressiva com traços culturais que remetem ao Oriente Médio e à Europa Oriental, que tenta anexar o pequeno e vulnerável Jarhanpur. Superman intervém e impede a invasão, mas sua atuação em território estrangeiro gera reações preocupadas ao redor do mundo, inclusive entre os líderes norte-americanos. O General Rick Flag (Frank Grillo), militar de perfil duro, começa a questionar o alcance das ações do herói. A pressão pública aumenta, impulsionada pelas redes sociais, e Lex Luthor aproveita para ampliar sua influência, manipulando autoridades e promovendo uma campanha para que o Superman seja neutralizado por representar uma ameaça geopolítica. A motivação de Luthor é pessoal: mesmo sendo o homem mais poderoso e rico do planeta, ele se sente constantemente diminuído pela existência do kryptoniano.
Seu plano culmina em uma operação para invadir a Fortaleza da Justiça de Superman, precedida por uma ameaça colossal em Metrópolis, na forma de um monstro gigante no estilo Kaiju, criado para desviar a atenção. O caos convoca a ação de heróis oficialmente autorizados pelo governo, conhecidos como a Gangue da Justiça, formada por Lanterna Verde (Nathan Fillion), Senhor Incrível (Edi Gathegi) e Mulher-Gavião (Isabela Merced). E isso é apenas o primeiro ato da trama. O segundo ato mergulha ainda mais fundo no caos com a introdução de conceitos como universos de bolso, jogos de chantagem, traições e a entrada de Metamorfo (Anthony Carrigan), um herói com habilidades de transformação corporal. Em meio a esse emaranhado narrativo, o que realmente brilha é a relação entre Clark Kent e Lois Lane (Rachel Brosnahan), marcada por uma sintonia natural e afetuosa que confere humanidade ao filme. A química entre os dois atores é o coração emocional do projeto, um contraponto bem-vindo à narrativa inchada, que oscila entre o exagero estilizado e tentativas pouco sutis de comoção.
A tentativa de James Gunn de resgatar o lado mais excêntrico e abertamente cartunesco da DC, uma marca que sempre diferenciou o estúdio da Marvel, acaba se perdendo em excessos mal calibrados. Em vez de conferir personalidade, muitos desses elementos soam gratuitos e deslocados: o visual e o comportamento insuportável de Guy Gardner, o bebê de aparência incômoda criado por Metamorfo, o uso exagerado de CGI de textura artificial e o abuso de lentes grande-angulares que distorcem mais do que estilizam. Até mesmo figuras como Krypto, o supercão, e as participações-relâmpago parecem inseridas mais por apelo nostálgico do que por função narrativa. O resultado é um tom instável e caótico, que muito deve à fotografia exageradamente polida de Henry Braham, o mesmo responsável por “Flash”, cuja obsessão por filtros plastificados e enquadramentos caricatos contribui para uma estética que mais afasta do que aproxima.
Caótico talvez seja a palavra que melhor define esta nova incursão cinematográfica do Superman. O filme parece estar sempre com pressa, personagens constantemente correm para resolver algo urgente, como se cada cena precisasse culminar em uma revelação grandiosa. As batalhas, embora visualmente impactantes, têm um ritmo tão acelerado e carregado de tensão que criam a impressão de estarmos sempre diante de um clímax, como se o embate final entre herói e vilão estivesse prestes a terminar a qualquer momento, com os créditos logo em seguida e as luzes do cinema se acendendo. Essa sensação constante de urgência esgota a narrativa e impede que os momentos respirem.
Ainda assim, apesar dos tropeços, “Superman” possui algumas virtudes. Clark Kent é retratado em um conflito interno sobre sua identidade e o papel que ocupa na Terra, um dilema já conhecido, mas ainda eficiente em conferir profundidade ao personagem. É interessante observar como Metrópolis reage à sua presença: nas primeiras batalhas, os cidadãos seguem suas rotinas com tranquilidade, confiantes na proteção oferecida pelo herói. Mais adiante, no entanto, quando sua imagem é abalada por um vilão manipulador e barulhento, a mesma cidade é evacuada em pânico. Nicholas Hoult se destaca ao dar vida a um Lex Luthor deliberadamente irritante e provocador. E, com alguma dose de sorte, o roteiro ainda acerta ao abordar temas que dialogam diretamente com questões atuais, uma camada inesperada de relevância no meio do caos que domina os 130 minutos de projeção.
James Gunn tenta reviver um Superman idealista, íntegro e guiado por valores nobres, um símbolo de luz em tempos sombrios. A intenção é nobre, mas o resultado soa vazio, como se estivéssemos assistindo apenas a uma colagem de boas intenções e discursos inspiradores sem raiz emocional ou construção dramática que os sustente. O filme até ensaia discutir temas relevantes, como a dificuldade de manter empatia e bondade em um mundo polarizado e hostil, mas tudo isso acaba parecendo mais um reflexo da internet, onde as ideias são lançadas rápido demais, sem tempo para amadurecer, do que um mergulho verdadeiro na psicologia do personagem. Há momentos em que quase enxergamos um Superman com algo a dizer, mas o roteiro parece mais interessado em preparar o próximo filme do universo compartilhado do que em desenvolver de fato o herói que está em cena. O resultado é um filme que acena para a esperança com cores vibrantes e gestos simbólicos, mas não consegue fazer essa esperança realmente decolar.