Se você já assistiu “O Esquadrão Suicida”, de James Gunn, é provável que reconheça o arquétipo: um grupo de rejeitados forçados a cumprir uma missão que, no processo, tropeça em alguma forma de redenção. Agora é a vez da Marvel explorar esse território com “Thunderbolts”*, filme dirigido por Jake Schreier que, embora compartilhe a estrutura básica do longa da DC, escolhe um caminho emocionalmente distinto. O resultado é uma obra que busca não apenas entreter, mas aprofundar-se em personagens corroídos pela vergonha e pela perda de identidade.
Grande parte do foco de “Thunderbolts”* recai sobre Yelena Belova, a nova Viúva Negra, interpretada por Florence Pugh. Trabalhando como agente em missões secretas para Valentina de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus), diretora da CIA, Yelena ainda lida com o luto pela morte da irmã, Natasha Romanoff. Em meio à dor, ela se mantém ocupada aceitando as tarefas que lhe são atribuídas, mesmo sem entusiasmo. O vazio deixado por Natasha e a rotina de assassinatos transformaram sua vida em algo automático e sem propósito. Em busca de algum tipo de conexão real, Yelena procura seu pai adotivo, Alexei Shostakov, o Guardião Vermelho (David Harbour). A tentativa de reaproximação, no entanto, é interrompida por mais uma convocação de Valentina, que a chama para uma nova missão, afastando-a de qualquer chance de recuperação emocional.
Ao chegar ao complexo ultrassecreto, Yelena descobre que não está sozinha. Outros operativos com passados turbulentos também foram reunidos por Valentina: John Walker, agora o Agente Americano (Wyatt Russell), desacreditado após os eventos de “Falcão e o Soldado Invernal”; Ava Starr, conhecida como Fantasma (Hannah John-Kamen), marcada pela instabilidade; e Antonia Dreykov, a Treinadora (Olga Kurylenko), especialista em imitar qualquer estilo de combate. A formação do grupo, porém, não é motivada por boas intenções. Logo fica evidente que Val pretendia, na verdade, encerrar suas dívidas com esses agentes eliminando todos de uma só vez, limpando seu tabuleiro sem deixar vestígios.
O plano sofre uma reviravolta com a presença inesperada de Bob (Lewis Pullman), um sujeito de testes submetido a experimentos extremos, cujo paradeiro era desconhecido até mesmo por Valentina e sua assistente Mel (Geraldine Viswanathan). Quando Bob manifesta todo o seu poder, a situação foge rapidamente do controle. Diante do caos, os membros do grupo, até então apenas sobreviventes seguindo ordens, são forçados a se unir. Liderados por Bucky Barnes (Sebastian Stan), agora tentando manter alguma ordem no meio do colapso, os Thunderbolts enfrentam uma ameaça que nasceu da própria corrupção de quem os recrutou. O que era para ser uma missão de contenção transforma-se em uma luta desesperada por redenção e sobrevivência.
Escrito por Eric Pearson, roteirista já familiarizado com o universo Marvel, em parceria com Joanna Calo, co-showrunner de “The Bear”, o roteiro de “Thunderbolts” não se destaca por sua originalidade ou ritmo, entregando uma narrativa que, em termos estruturais, soa convencional e contida. No entanto, por trás da simplicidade, há uma história que encontra força no tema da reconstrução pessoal. A trama explora com sensibilidade a jornada de personagens marcados pela culpa e pelo fracasso, oferecendo um olhar sincero sobre o esforço de superar a vergonha e enfrentar os próprios erros.
O maior antagonista do filme não é Valentina de Fontaine com seus jogos manipulativos, nem uma figura monstruosa como o Sentinela ou qualquer ameaça externa. O verdadeiro conflito nasce de dentro: da dúvida, da voz interna que sabota e da dificuldade de perdoar a si mesmo. Nesse sentido, “Thunderbolts” se distancia do espetáculo típico do MCU e aponta para algo mais íntimo: o embate silencioso com o passado, com as escolhas erradas e com o medo de não ser digno de redenção.
“Thunderbolts”* não é o grande espetáculo de ação que costuma definir os blockbusters do Universo Cinematográfico da Marvel, nem pretende ser. Seu foco está menos na grandiosidade visual e mais em construir um drama centrado em personagens quebrados, cujas trajetórias emocionais importam mais do que as batalhas. O filme se aproxima mais de um drama disfarçado de aventura de super-heróis, no qual o que está em jogo é a dignidade pessoal de cada integrante da equipe.
“Thunderbolts”* surpreende ao encontrar sua força não nas cenas de ação, mas nos momentos de vulnerabilidade emocional que surgem ao longo da narrativa. Embora contenha os confrontos esperados, são os instantes silenciosos e humanos que realmente se destacam, dando profundidade aos personagens. Florence Pugh, como Yelena, atua como o núcleo emocional do filme, sustentando boa parte da narrativa. A química entre os personagens não apenas convence, como injeta autenticidade a uma história sobre dor, falhas e reconstrução. É aí que o filme encontra sua verdadeira força.
“Thunderbolts”* nunca teve a ambição de redefinir o Universo Cinematográfico da Marvel, e talvez essa seja a chave para o que ele consegue realizar. Mais do que uma narrativa de ação, o filme funciona como uma jornada terapêutica disfarçada, em que personagens quebrados enfrentam não só ameaças externas, mas principalmente conflitos internos: culpa, arrependimento e vergonha. Com um humor bem dosado, momentos de emoção e um olhar honesto sobre a necessidade de autocompaixão, o longa transmite algo simples e importante: perdoar a si mesmo e seguir em frente, ainda que aos trancos, também é uma forma de heroísmo.