Em “Tron: Ares”, Joachim Rønning retorna ao universo digital da Disney para refletir sobre os limites entre criação e destruição na era da tecnologia. O filme apresenta duas figuras que veem na mesma inovação o poder de moldar o futuro à sua maneira. De um lado, Eve Kim (Greta Lee), CEO da ENCOM, busca usar a ciência como ferramenta de regeneração ambiental; do outro, Julian Dillinger (Evan Peters), herdeiro da ambição corporativa, enxerga na manipulação digital a chance de dominar o real. Rønning transforma essa disputa pelo “código de permanência” — que permitirá que suas criações durem mais de 29 minutos antes de se desfazerem em pó — em uma metáfora sobre o desejo humano de ultrapassar seus limites e o preço de tentar controlar um sistema.
Quinze anos após “Tron: O Legado”, a produção busca retomar o espírito que marcou a franquia desde 1982, quando o conceito de um homem preso dentro de um sistema digital ainda soava como ficção. “Tron: Ares” mantém o compromisso com o visual e a imersão tecnológica que sempre foram a marca da série, mas tropeça ao tentar equilibrar forma e conteúdo. O espetáculo de luzes e efeitos impressiona, porém o enredo se mostra frágil diante da própria ambição estética, deixando a sensação de que o universo criado com cuidado é mais interessante do que a história que o sustenta.
O elenco sustenta a narrativa com intensidade, tendo Evan Peters como o ponto central da trama. Ele interpreta Julian Dillinger, um herdeiro da tecnologia que cria Ares (Jared Leto), um programa humanoide desenvolvido para alcançar a imortalidade, mas condenado a se desintegrar após 28 minutos. A falha da criação leva Dillinger a um colapso enquanto enfrenta a possibilidade de perder o controle da própria empresa, comandada por sua mãe, interpretada por Gillian Anderson. Quando o “código de permanência” cai nas mãos da CEO rival Eve Kim (Greta Lee), Dillinger envia Ares para recuperá-lo. No entanto, a missão ganha outro rumo quando o programa começa a demonstrar traços de consciência e emoções humanas. Peters conduz o personagem com energia, mas nem mesmo seu desempenho consegue esconder a fragilidade dos diálogos e a ausência de emoção no desenvolvimento da história.
É preciso reconhecer o espaço que Jared Leto ainda ocupa em produções de peso. Apesar da divisão que seu nome costuma causar entre público e crítica, ele continua a conquistar papéis de destaque em projetos de alto orçamento, mantendo-se como uma presença nas discussões sobre o que significa ser uma estrela na era digital do cinema.
A trilha sonora do Nine Inch Nails é o elemento que dá vida a “Tron: Ares”. Suas composições eletrônicas sustentam o ritmo e a energia que o roteiro não alcança, transformando a projeção em uma experiência sensorial, especialmente quando unida aos visuais em IMAX. Ainda assim, o filme não consegue manter o equilíbrio entre espetáculo e significado. As reflexões sobre mortalidade e consciência perdem força diante do excesso visual, e cada tentativa de profundidade acaba soterrada por uma camada de brilho digital que reduz a emoção a mero efeito.
No fim, “Tron: Ares” se apoia mais na aparência do que na substância, oferecendo um espetáculo visual que impressiona, mas pouco diz. O filme sugere uma reflexão sobre os limites da inteligência artificial e da criação, mas trata o tema como um detalhe em meio ao brilho das luzes. Para quem busca apenas entretenimento visual, a experiência pode funcionar como uma imersão de impacto, principalmente em telas grandes. Porém, para quem espera reencontrar o espírito que tornou o original marcante, resta a constatação de que a evolução técnica não veio acompanhada de um avanço humano equivalente.