ORBE

“Um Lobo entre os Cisnes” retrata a história do bailarino Thiago Soares com precisão e sensibilidade

“Um Lobo entre os Cisnes” retrata a história do bailarino Thiago Soares com precisão e sensibilidade

Um Lobo entre os Cisnes”, longa-metragem dirigido por Marcos Schechtman e Helena Varvaki, é mais uma cinebiografia de forte apelo pessoal, voltada a revelar a trajetória singular de uma figura que, embora reverenciada nos palcos do balé, ainda permanece desconhecida para boa parte do grande público. O filme acompanha a história de Thiago Soares, bailarino brasileiro que trilhou um caminho improvável, vindo de um subúrbio do Rio de Janeiro e, contra todas as expectativas, conquistando os palcos das mais prestigiadas companhias internacionais, incluindo o Royal Ballet de Londres. A narrativa destaca não apenas os marcos de sua carreira, mas também mergulha na relação íntima com seu mentor e nos conflitos internos que moldaram sua arte.

Thiago Soares (Matheus Abreu) é um jovem da periferia do Rio de Janeiro que deixa para trás o universo do hip hop ao descobrir, quase por acaso, o balé clássico. Seu talento logo desponta em uma prestigiada escola de dança da cidade, mas o que parecia ser uma trajetória linear rumo ao sucesso ganha contornos mais complexos a partir de sua relação intensa e conturbada com o mentor cubano Dino Carrera (Darío Grandinetti). É sob a exigente orientação de Dino que Thiago lapida seu dom até alcançar o estrelato, consagrando-se como o primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres.

A estrutura de “Um Lobo entre os Cisnes” não é novidade para ninguém. Já estamos bastante familiarizados com essa narrativa do protagonista que parte do absoluto nada até se tornar alguém relevante naquilo que faz. O destaque aqui está na execução e no apelo emocional que a produção consegue sustentar ao longo de seus 110 minutos de duração. A dupla Schechtman e Varvaki conduz o filme de maneira linear e eficaz, desde o aluno que rejeita o balé de imediato, acreditando ser “coisa de viado”, até o dançarino que, após mais uma indisciplina, implora ao mentor por uma nova chance.

Apesar da jornada desafiadora vivida pelo protagonista, o verdadeiro ápice do filme está na relação entre dois personagens profundamente distintos. Se Thiago é impulsivo, indisciplinado e avesso a regras, Dino representa o extremo oposto: rígido, metódico e determinado a colocar o jovem nos trilhos. Dino funciona quase como uma versão mais severa do Sr. Miyagi. Em certo momento, obriga Thiago a carregar sacos de cimento para fortalecer os braços e conseguir erguer suas parceiras de dança. Essa rigidez ganha força graças à interpretação precisa de Darío Grandinetti, que constrói um mentor frio, impenetrável e, por vezes, até intimidante.

Já Matheus Abreu entrega uma performance instável, que oscila entre lampejos de entrega genuína e momentos em que o controle da expressividade parece escapar. Ainda em processo de consolidação como ator dramático, ele transita entre o carisma de galã e a tentativa de mergulho emocional mais profundo, uma dualidade que nem sempre funciona a favor do personagem. Seu Thiago, marcado por um ego inflado e uma energia caótica, exige sutileza para que a arrogância soe autêntica, e não apenas teatral. Em alguns trechos, o excesso de maneirismos — olhares carregados, gestos largos — denuncia uma herança mais televisiva do que cinematográfica, o que enfraquece o impacto de cenas que pedem contenção e densidade emocional.

Embora o tabu do homem dançando balé, especialmente nos anos 90, já tenha sido citado em parágrafos anteriores, o roteiro parece pouco interessado em desconstruir essa questão. Pelo contrário, há uma insistência repetitiva em reafirmar a heterossexualidade do protagonista, o que pouco contribui para a narrativa. Acompanhamos Thiago em envolvimentos amorosos com diferentes mulheres, que frequentemente disputam sua atenção, mas tudo isso soa mais como uma tentativa de consolidá-lo como uma figura de “macho alfa” do que como um elemento relevante para a trama.

Um Lobo entre os Cisnes” funciona como um registro valioso na carreira de Thiago Soares, representando um passo importante em sua trajetória artística. O filme narra e pontua momentos marcantes da vida do bailarino, ainda que escorregue em certos pontos, especialmente na forma como conduz as passagens de tempo. Ainda assim, é uma obra que merece ser apreciada. Em última análise, o que se entrega ao espectador é um valor simbólico significativo: uma narrativa que pode inspirar outros jovens a enxergar na dança e na arte caminhos possíveis de transcendência, por meio da história que aqui se desenha.