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“Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda”: sequência aguardada reúne Lohan e Curtis após 20 anos

“Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda”: sequência aguardada reúne Lohan e Curtis após 20 anos

Vinte anos se passaram desde que mãe e filha trocaram de corpos pela última vez em “Sexta-Feira Muito Louca” (2003), marcando toda uma geração com performances afiadamente cômicas de Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan. A nova sequência, dirigida por Nisha Ganatra, chega como um raro retorno a uma fórmula clássica do cinema: a comédia de troca de corpos, aquele subgênero peculiar que, quando bem executado, transforma o absurdo em um campo fértil para atuações precisas e uma certa psicologia de desenho animado. O desafio permanece o mesmo: convencer o público de que um personagem está sendo habitado por outro e fazer isso com carisma, timing e verdade emocional. Mais do que nostalgia, Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda parece interessada em redescobrir o potencial cômico e afetivo de um artifício narrativo que, em mãos talentosas, continua irresistivelmente eficaz.

Se no longa original o confronto geracional era catalisado por uma adolescente rebelde e uma mãe sobrecarregada, a sequência atual atualiza esse embate para um contexto mais maduro, mas igualmente turbulento. Anna (Lindsay Lohan), agora mãe de uma pré-adolescente e prestes a se tornar madrasta, precisa conciliar os dilemas da vida adulta com as inseguranças que o novo arranjo familiar desperta. Já Tess (Jamie Lee Curtis), avó e atriz premiada com um Oscar, enfrenta os próprios desafios de envelhecer em um mundo que cobra reinvenções constantes. Ao reposicionar suas protagonistas em papéis diferentes, mas emocionalmente espelhados, o roteiro revisita os conflitos originais com um olhar renovado, revelando que o amadurecimento nem sempre é sinônimo de estabilidade. E é justamente nessa repetição de padrões, nesse eterno retorno às mesmas dinâmicas, que o filme encontra seu charme: na constatação de que crescer, afinal, é continuar tropeçando, só que com um pouco mais de humor e consciência.

A diretora Nisha Ganatra conduz essa reviravolta sem grandes esforços de explicação mágica, deixando tudo nas mãos de uma vidente excêntrica, Marisa (Vanessa Bayer), que surge misteriosamente atrás de uma máquina de refrigerantes. A primeira troca repete a clássica dinâmica entre mãe e filha: Anna e Harper (Julia Butters) acordam uma no corpo da outra, reacendendo os dilemas do filme original com uma nova camada de maturidade e ironia. Mas o verdadeiro impulso cômico vem da segunda inversão: Lily (Sophia Hammons), a adolescente esnobe, acaba no corpo de Tess, a avó e figura quase materna de Harper. Enquanto isso, Tess se vê presa na personalidade intensa, arrogante e absolutamente hilária de Lily. É nesse descontrole cuidadosamente coreografado que o filme encontra seu ritmo mais divertido, explorando os embates geracionais com uma irreverência que honra e renova a essência da franquia.

O terreno parecia fértil para uma comédia ainda mais insana do que a vista em “Sexta-Feira Muito Louca”. Com quatro personagens centrais em rota de colisão e duas trocas de corpos simultâneas, esperava-se o tipo de atuação elétrica em que cada ator canaliza, de dentro para fora, a persona de outro, aquele jogo teatral irresistível em que o corpo vira um disfarce e a alma é quem comanda a performance. Mas, curiosamente, “Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda” nunca se entrega por completo a esse caos cênico. A premissa está lá, os elementos estão dispostos, mas a execução se revela contida, como se o filme hesitasse em abraçar plenamente o absurdo. Por uma combinação de escolhas de direção, ritmo mais polido e uma energia cômica menos visceral, o impacto da troca de corpos se dilui, deixando no ar a sensação de que a comédia, embora charmosa, poderia ter ido muito mais longe.

Parte do charme de uma boa comédia de troca de corpos está no choque entre personalidades opostas, no atrito cômico que nasce quando um ator precisa habitar uma energia totalmente alheia à sua. Mas em “Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda”, essa tensão por vezes se dissipa justamente pela falta de contraste entre os pares centrais. Anna ainda carrega aquela leveza juvenil que marcou sua carreira desde os anos 2000, enquanto Harper, apesar da pouca idade, transita com uma confiança precoce típica de sua geração. O resultado é que, quando elas trocam de lugar, a transformação soa mais como uma pequena reorganização do que uma verdadeira colisão de mundos. O mesmo problema, embora em outra chave, afeta a segunda troca: Lily, com sua pose aristocrática e tédio autoritário, teria tudo para se tornar um contraponto hilário ao temperamento direto e caloroso de Tess. No entanto, o filme hesita em explorar esse contraste ao máximo, deixando escapar o potencial de performances mais radicais.

Apesar das oportunidades cômicas desperdiçadas, “Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda” encontra seu coração onde menos se espera: na delicadeza das relações em formação. Ao tentarem elaborar um plano que pode influenciar o futuro da família, Harper e Lily acabam, ironicamente, construindo o laço que mais resistia a se formar e descobrem, no meio da confusão, que desejam, sim, fazer parte da mesma família. No centro dessa transformação emocional está também Anna, que deixou para trás a guitarra da Pink Slip para se tornar empresária de Ella (Maitreyi Ramakrishnan), uma estrela pop em ascensão, mas que ainda escreve músicas escondida, como quem guarda pedaços de si mesma no fundo da gaveta. É justamente a energia inquieta de Harper, vivendo temporariamente no corpo da mãe, que desenterra esses desejos adormecidos. No fim das contas, o filme funciona mais como uma fábula emocional sobre afeto e reconexão do que como a comédia corporal explosiva que promete ser. E talvez, no mundo das continuações tardias, isso não seja um fracasso.