Em 2016, os estúdios Walt Disney apresentaram “Zootopia”, uma animação original que conquistou público e crítica. De lá para cá, o estúdio preferiu investir em live-actions de clássicos, em projetos que quase ninguém pediu e, claro, em espremer a Pixar até o limite. Ainda assim, “Zootopia” permaneceu como uma das obras mais queridas da casa e, curiosamente, não recebeu uma continuação imediata. Agora, quase uma década depois, a esperada sequência, dirigida por Jared Bush e Byron Howard, finalmente chega aos cinemas. O mais surpreendente é que ela é tão boa quanto o filme original.
Os investigadores Judy Hopps (dublada por Ginnifer Goodwin) e Nick Wilde (dublado por Jason Bateman) perseguem um réptil que desembarca em Zootrópolis e coloca a cidade de cabeça para baixo. Para solucionar o mistério, Judy e Nick precisam explorar regiões novas da metrópole, onde a dupla enfrenta desafios que ameaçam abalar a confiança entre eles.
O primeiro “Zootopia” é reconhecido como um dos melhores filmes produzidos pela Walt Disney Animation Studios na última década, o que gerou expectativas cautelosas em relação à continuação. As sequências recentes do estúdio, de “Detona Ralph 2” a “Frozen 2” e “Moana 2”, foram recebidas de forma negativa, sempre em comparação com suas obras originais. Nesse cenário, “Zootopia 2” surgia sob desconfiança, mas a produção surpreende ao quebrar esse ciclo e entregar uma continuação à altura do universo criado em 2016.
Embora nenhuma cena isolada atinja a genialidade cômica da sequência do longa anterior com o funcionário preguiça do departamento de trânsito (personagem chamado Flash que retorna brevemente, desta vez dirigindo em alta velocidade), a continuação entrega uma série de momentos construídos pela dupla de diretores Jared Bush e Byron Howard. Entre os destaques estão uma passagem envolvendo uma embarcação com design de morsa e outra ambientada num evento inspirado no festival Burning Man.
O longa apresenta um estilo de animação rico em detalhes, exibindo ambientes que valorizam cada frame. “Zootopia” já transbordava vitalidade e cor na primeira produção, e esta consegue ampliar ainda mais esse mundo e incorporar novos componentes visuais. Apesar disso, continuo achando que nenhuma animação conseguiu apresentar algo tão impactante visualmente desde o surgimento de “Gato de Botas 2”.
O principal problema percebido no filme é que ele repete algumas armadilhas narrativas do original, especialmente no que diz respeito à reviravolta. A identidade do vilão torna-se evidente desde cedo, e a revelação oficial acontece tardiamente, ecoando a estrutura do primeiro longa. Ainda assim, desta vez o antagonista recebe mais espaço para se desenvolver, além de protagonizar uma paródia de “O Iluminado”, o que torna o resultado um pouco mais satisfatório.
No fim das contas, é possivelmente uma das continuações mais bem-sucedidas que a Disney produziu recentemente. A narrativa se revela ágil e repleta de camadas, trazendo personagens novos, cenários frescos e mensagens consistentes. O encanto que fez “Zootopia” brilhar permanece intacto nesta segunda aventura, preservando sua identidade. A reflexão sobre questões sociais foi trabalhada com competência, ainda que a guinada final da história tenha deixado a desejar. Por outro lado, a evolução da parceria entre os protagonistas foi desenvolvida de forma delicada e convincente. De modo geral, a experiência foi satisfatória e a sequência faz jus ao legado do filme original.